15 anos – ou mais – depois.

Posted by on Jun 27, 2011 in Blog | No Comments

Sabe, eu tinha uma coisa que chamava “Caixa da minha vida”. Do tamanho de uma mala de viagem dessas que comportam uma semana de roupas de alguém com muito bom senso. Faz 15 anos ou mais que, de tempos em tempos, abro a caixa e guardo algumas coisas lá: memórias. Bom, fazia. Hoje a caixa da minha vida foi para o lixo.

Ao longo do tempo a caixa rodou bons quilômetros para estar sempre ao meu lado. Assim como eu, nasceu em Blumenau. Mudou-se comigo para Florianópolis e depois para São Paulo. Estava cheia, transbordando, e só se mantinha fechada na base das fitas adesivas. Para acalmar a curiosidade do leitor, vou listar algumas coisas sepultadas por lá:

  • Agulha que perfurou minha barriga e abriu caminho para o finado piercing de umbigo.
  • Recortes de jornal nos quais eu aparecia.
  • Históricos escolares.
  • Diários.
  • Moedas.
  • Fotos.
  • Manuais de câmeras fotográficas, impressora e monitor.
  • Fotocópias em geral.
  • Bilhetes trocados em sala de aula (da oitava série).
  • Cartas. Toneladas de cartas.

Sempre gostei de escrever e de receber cartas pelo correio. A sensação de ter um pedaço de papel que alguém separou para lhe escrever bobagens, amores ou declarações me parece única. Quando surgiu a onda do Pen Pal, colecionava amigos pelo mundo. E não satisfeita, fazia questão de trocar cartas com os amigos da escola. Sim, pessoas com quem eu convivia 4 horas por dia. Pessoas, não: uma pessoa. Filipe Voltolini, meu eterno melhor amigo, figura no topo da lista dos meus correspondentes. Somos amigos há quase 20 anos e inventamos algo que nos consumia boa parte do nosso infinito tempo livre: as Cartas Diário.

Agora pode parecer patético, mas em um tempo em que não existia blog, msn, nem sexo (pelo menos pra gente), as Cartas Diário eram o que havia de mais divertido na galáxia. Apesar de considerar o nome autoexplicativo, vamos lá: as cartas consistiam em um punhado de papel onde cada um narrava sua semana. Mas é lógico que não era simples assim. Como se tratavam de duas mentes jovens e férteis, fazíamos questão de rechear os envelopes com embalagens de salgadinho, papel-bandeja do MC Donalds, desenhos e loucurinhas em geral. Abri algumas e ri, como sempre. Respirei fundo e coloquei todas elas empilhadas ao lado do lixo reciclável.

Também havia um punhado de fotos. Desde inocentes viagens a registros de um noivado errôneo, de noites de roquenrou curitibano a cliques infantis feitos com a câmera do Mickey. As fotos eu guardei. Para ser sincera, guardei aquelas que importavam, o que quer dizer que boa parte se foi também. E na pilha das que ficaram tinha mais Filipe.

Então eu fiquei feliz por ter um Filipe na minha vida e por perceber que em todos os momentos legais – e em outros nem tanto – ele estava lá e vai continuar estando. Me senti leve ao descartar todo aquele passado porque entendi que o que importa a gente guarda na cabeça e no coração, e não em um monte de papel amarelado numa caixa cheirando a mofo. Desde quando eu preciso de um diário pra lembrar que o Douglas era o amor da minha vida na quinta série? E preciso ocupar espaço no universo com cartas de gente cujo rosto eu nem sei como é? Agora minha vida precisa de muito espaço para a Luna e o montão de coisas lindas que vou querer guardar.

Daqui uns 15 anos a gente fala sobre isso outra vez.

Um dos achados da Caixa da Minha Vida, da época em que eu não precisava usar escova de cabelo.