A crise da garrafa térmica – uma história verídica.

Posted by on Aug 8, 2012 in Blog, eu que fiz, texto, vida | 3 Comments

Até que horas vai sua gastrite? Gastrite tem horário de funcionamento? Queria que a minha parasse. Gastrite em greve, assim como professores de universidades federais e controladores de vôos, ou voos, ou vos, ou vovos. Vovôs em greve causam muitos problemas familiares, quase sempre envolvendo crises conjugais, passados em ebulição ou doenças degenerativas.

Gastrite é problema no estômago. Irritação da mucosa. O médico disse que cinco coisas podem causar gastrite: alimentação ruim, excesso de refrigerante, estresse, cigarro e uma bactéria. Minha mãe – que não é médica – disse que gastrite é medo. Na verdade, ela disse que qualquer problema relacionado ao estômago nasce no medo e já emendou um “tá com medo de quê?” no meio da conversa.

Eu tenho medo de coisas que dão medo, por isso me considero completamente normal. Tenho medo de fazer ressonância magnética no crânio, por exemplo. Não por causa do exame em si, que é estranho e extremamente barulhento, mas por causa do que pode aparecer ali. Passei muito bem durante a ressonância magnética, mas agora estou passando meio mal por causa da ligação que acabei de receber. A moça do hospital pediu para eu voltar lá e fazer um complemento do exame. Ela falou, entre muitos ers, ahms e entões que isso é completamente normal e que não quer dizer nada.

Nada.

Prefiro nada. Um casulo branco e silencioso, com cheiro de grama e esse sentimento de paz que tem espessura de iogurte orgânico. Nada. Tudo bem? Nada. Tudo mal? Nada. Só esse meio sorriso bobo que não sabe de onde veio, muito menos para onde vai. Me vê um nada, por favor. Lá não tem ressonância magnética, nem injeção. Contraste? Não, não. Nada.

Da janela, a vida segue com sua irritante constância. Os aviões continuam a passar: nenhum cai ou esquece de pousar no aeroporto certo. Os carros vão irritados, os cachorros ainda preocupados em demarcar canteiros, lajotas e sarjetas. O sol parece estar se esforçando descomunalmente só para imprimir um amarelo diferente no prédio da vizinha. Enquanto o azul do plano de fundo preferiu vestir um tom básico, meio lavado, para deixar a paisagem vintage.

Meu vô causou muitos problemas. Deve ter feito uma porção de coisas boas, é verdade, mas ultimamente seu nome tem se associado a sobrancelhas arqueadas, olhos para cima e suspiros. Na minha família, uma menção ao meu avô já aciona alertas multicoloridos e dispara frases como “está no hospital?”, “está sem dinheiro?”, “comprou outro carro importado?”, “parou de tomar os remédios outra vez?”.

Avôs têm problemas. Todo mundo diz que é por causa da idade, mas eu acho que é só porque eles já viram coisas demais. Não dá pra viver nesse planeta e passar ileso. Pensar assim é tão inocente quanto achar que avôs ficam doentes só por causa da idade. Problemas no coração, no pulmão, nas juntas, no colesterol, no cérebro. Isso tudo é problema de avô. Não sei se meu avô tem algum desses, mas sei que ele é depressivo, bem como o pai dele, meu bisavô.

Conheci meu bisavô quando era criança. Ele morava no segundo andar da casa da minha bisavó. Tossia muito e, quando se mexia lá em cima, me pegava imaginando que ele era um cara mau. Um Brutus barulhento e cheio de pigarro que morava no segundo andar e nunca descia. Não lembro o nome dele, nem a causa da morte. A questão é que ele tinha depressão. Anos depois fui entender que era por isso que ele morava no quarto e nunca descia.

Meu avô era um de seus muitos, muitos filhos. Me disseram que ele batalhou e conquistou um império. Ele e minha avó se juntaram por algum motivo – acho que não foi amor. Ela costurava e ele vendia as peças. Em algum momento e em troca de muito suor, enriqueceram. Construíram uma casa com duas piscinas. Duas cozinhas. Uma garagem para infinitos carros. E viviam naquela história de filme: ninguém se amava, todo mundo se machucava. Meu avô tinha seus episódios. Em um deles, quase se jogou da janela. Minha avó não deixou. Foi buscá-lo lutando contras as persianas. Meu pai estava lá, olhando, embebido em sua impotência infantil.

Meus avós se separaram em um processo novo, chamado “divórcio”. Como eu era criança, nunca me disseram o real motivo, mas hoje eu acho que sei. A vida me ensinou que há cinco coisas que podem causar divórcio: dinheiro, cansaço, desrespeito, realidade e uma bactéria.

Esse fluxo de pensamento é meu mocinho e bandido. Enquanto leva embora o tempo que me faria chorar por causa dessa segunda ressonância magnética, também acaba com os instantes de calma e tranquilidade, os quais eu poderia aproveitar para descansar a cabeça. Isso de descansar a cabeça é muito interessante porque acho que faz 27 anos que minha cabeça não descansa. Talvez seja por isso que eu estou aqui.

Minha cama fica diferente quando é usada das 9h às 19h, com outra finalidade que não seja o sexo ou o sono. Ela tem me suportado nesses dias de afastamento do trabalho – ou “afastamento da vida real”, como chamo carinhosamente esse período de molho. Não que eu esteja fisicamente debilitada ou com uma perna suspensa e um braço engessado, não, não. Estou com um problema inédito.

Digo problema inédito porque – oras – quem não tem problemas diários? O problema de ter que ir ao trabalho, o problema de ter que ganhar dinheiro, o problema de ter que se submeter, o problema de não ter tempo. Tenho todos esses e sempre convivi muito bem com eles. O que me assola agora é o problema de não conseguir.

Sei que pode soar estranho, mas a questão é que esse problema é inédito para mim. E se você considerar que sou dessas pessoas que dividem o mundo entre os que conseguem e os que não conseguem, vai perceber que meu problema é grande. Ou melhor, profundo. Minha companheira, a depressão, driblou tratamentos e cloridratos em geral para me aprontar essa. Uma crise.

Sinto que não consigo mais. Sinto muito. Não consigo mais ser um monte de coisas por dia, respondendo aos estímulos do ambiente, me portando como macho alfa o tempo inteiro. Não consigo mais avaliar dois pontos em um nanossegundo e largar uma resposta precisa com gotas de sarcasmo. Não consigo mais produzir e dar amor na mesma medida em que a vida exige. Justo eu, aquela que conseguia tudo.

Já me vi perto de não conseguir outras vezes. Mas em todas elas, me esforcei mais, me puxei mais, fiz o que faltava para, na última hora, conseguir. Sou dessas que sempre consegue. Que ouve noventa e duas vezes por dia “você é forte, você consegue”, engole o choro, vai lá e consegue. Mas dessa vez, não. Fui à psiquiatra e, na volta, comprei uma garrafa térmica nova. E um descascador de vegetais.

3 Comments

  1. Tayara
    09/08/2012

    Gica … você não me conhece, mas eu realmente gostaria de dividir alguns fatos com você. Há dois anos, quando ainda morava em Joinville, estava buscando pessoas referências em SP: que tivessem saído de suas cidades, que tivessem histórias pra contar, enfim … que tivessem dado um rumo pra sua vida.

    Devo ter achado você pelo twitter, blog, até que cheguei aos seus blogs mais antigos, quando você morava em Blumenau, depois se mudou pra Florianópolis etc etc. Acho que li grande parte do que você escreveu e que ainda estava disponível na internet. Me impressionou a sua força de vontade (morar sozinha, morar com namorado), sua criatividade (nas músicas, no trabalho). Enfim … fiquei com aquela impressão de “essa pessoa é bacana pra se ter como exemplo de que é possível ir longe.”

    Aí foi a minha vez. Eu me mudei pra SP e continuei te acompanhando (assim como outras pessoas …. daqui a pouco esse texto vai soar como perseguição :/ ). Vi que você se casou com o Fabio Yabu. Yabu … esse nome não me era estranho. Então um dia eu lembrei: Yabu era o criador dos combos rangers que eu lia lá em Joinville quando a internet ainda era discada!!! Que coincidência … achei que o mundo era muito bacana por juntar pessoas legais de várias áreas e dar a oportunidade para que elas se complementem.

    E hoje li esse texto. E ao contrário do que muitas pessoas fazem, de colocar alguém que se admira em um lugar distante e inalcançável, eu entendi que você está perto. Mais do que te agradecer por sempre dividir seus textos na internet, suas conquistas, e tudo de melhor que você produz … hoje eu te agradeço por ter dividido a sua fraqueza. Mostrou que pessoas que admiramos também passam por perrengues, e precisam de colo. Tive mais uma prova de que eu não preciso ser forte o tempo todo, me manter centrada e exigir tanto de mim mesma.

    Gica … espero que escrever esse texto tenha te ajudado tanto quanto a mim ao lê-lo. Me sinto um pouco envergonha de te contar tudo isso. Mas gostaria que você soubesse que pessoas que você nem conhece te admiram … e a partir de hoje, mais ainda.

  2. Gica Trierweiler Yabu
    09/08/2012

    S2

  3. Giselle
    10/10/2012

    Por algum motivo eu lembrei de você quando escutei essa música:

    http://www.youtube.com/watch?v=zyhl1iVvjdg

    acho que o motivo é que ela pode ser uma ótima opção para você colocar no: Trilha para =)

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