A virada via conexões internacionais – uma história verídica.

Posted by on May 2, 2014 in Blog, novela | One Comment

Àquela altura do campeonato, nada podia ser pior. Não, é claro que poderia: eu ainda tinha uma casa, comida e estava estudando; mas, deixando as convenções cristãs de gratidão de lado, eu estava bem na pior mesmo. A virada de 2004 para 2005 foi categórica porque naquele momento me fiz uma promessa, algo muito mais potente que qualquer resolução etílica que se declara aos quatro ventos minutos antes da contagem regressiva. “Eu JAMAIS vou passar por isso de novo” era o que me repetia em looping enquanto elaborava meu plano de ação.

Antes de mais nada, eu precisava resgatar minha dignidade. Pra isso, precisava de uma renda fixa. Pra isso, precisava de um emprego. Pra isso, existe pai e mãe. Fui lá ser secretária da academia outra vez em troca de um salário honesto e alguma paz de espírito. Independência financeira? Temos.

Ainda havia a necessidade de acalmar o coração, supostamente deixado de repouso no freezer. Supostamente porque era isso que eu dizia pra mim mesma como se fosse um mantra, embora estivesse morrendo de vontade de me apaixonar bonito outra vez. Reciprocamente, de preferência. Como se trata da minha história, é óbvio que me joguei de cabeça numa história que tinha tudo pra dar errado – vide capítulo anexo. E, como se trata mesmo da minha história, cai, levanta e vai de novo.

Não lembro bem como foi que o camarada surgiu na minha vida, mas aposto que foi via blog de algum amigo em comum. A questão é que ele escrevia lindamente, era formado em letras e traduzia literaturas do mundo todo num português limpo, sagaz e cheio daquilo que pouco tempo depois acabou virando marca registrada da minha própria escrita: os dois pontos. É lógico que o camarada não morava na mesma cidade que eu. Aliás, é lógico que o camarada morava onde? Em Curitiba.

Semanas depois eu lia Lygia Fagundes Telles fumando cigarros consecutivos no saguão da rodoviária, tentando disfarçar meu nervosismo em meio a tanta fumaça. O camarada apareceu me pegando pela cintura, num gesto que me tranquilizava e excitava ao mesmo tempo. O coração foi pedindo licença pra sair do freezer e voltar para o lugar. Fomos a um show que nem lembro mais porque ficar do lado de fora olhando para o céu, fumando sparkling cigarettes de sabor chocolate e inventando novos idiomas era o suficiente para me fazer flutuar. Foi um fim de semana que começou bonito, passou por um sexo desengonçado num hostel e terminou estranho depois do ensaio da banda. Mas ainda assim, feliz. Esse fim de semana foi o suficiente para sustentar mais umas dezenas de horas de conversas no espaço-tempo virtual até que… foram… se tornando… menos… … … … frequentes e… você sabe o quê.

A falta de emoção no trabalho me fez procurar alternativas para exercitar o intelecto e complementar a renda. Acabei topando fazer um pacote de coisas para uma amiga, que partia com seus vasos artesanais para uma feira de móveis e decoração em São Paulo. Entre fotos, folders e uniformes, um convite para trabalhar em um dos seus stands por uma semana que aceitei sem pestanejar. Fui comunicar as boas novas à minha empregadora que, coincidentemente, vinha a ser também minha mãe. “Você ainda não tem férias a vencer. Se quiser ir, pode ir, mas vai ter que pedir demissão. E se pedir demissão, nunca mais te contrato outra vez.” foram suas doces palavras. Com a auto-estima um pouco melhor, resolvi bancar minha decisão. Era isso: eu estava indo passar uma semana em São Paulo e ninguém ia me impedir. Isso. São Paulo. Aquele lugar longe de Blumenau onde tudo acontecia. São Paulo, aquela cidade cujo caminho de volta incluía Curitiba. Curitiba? E lá fui eu fazer uma ligação.

Agora sim: estava a caminho de São Paulo e, uma vez profissional liberal, poderia parar em Curitiba na volta para passar uns dias cheios de literaturas e dois pontos com o camarada. A viagem de ida foi bastante animada porque todos os presentes naquela van eram muito amigos ou mal sabiam, mas estavam prestes a se tornar amigos para sempre. Foram dias de trabalho duro montando stands, pintando estantes, desembrulhando vasos frágeis, tirando pedidos, conhecendo gente e, é claro, regando tudo isso com muita, mas muita cerveja barata em botecos da Rua Augusta, onde nosso hotel ficava. Entre esses amigos todos, havia um de quem eu gostava mais e por isso acabávamos nos beijando assim, sem mais, obrigada. O amigo esse era bonito e engraçado e inteligente e designer e me chamava de Giquinha e por essas e outras acabei trocando de quarto em uma das noites da nossa estadia só pra dormir abraçada nele – e por “abraçada”, leia-se abraçada com começo, meio e fim. Afinal, eu era a Giquinha do amigo esse, mas também era a Ludmila do camarada que me aguardava em Curitiba.

Um dia antes da partida, fui desbravar a cidade grande. Meu grande passeio incluiu fazer uma foto minha em frente à DPZ e comprar muitos CDs indies baratos na Velvet Cds, na Galeria do Rock. Também foi nesse dia que liguei para o camarada, a fim de combinar pontos de encontro e tudo mais. Qual não teria sido minha surpresa ao escutar aquela mesma voz dizendo sabe-o-que-é-minha-ex-namorada-do-rio-vem-pra-cá-e-nós-meio-que-vamos-tentar-de-novo-e-que-coisa-né e não me lembro mais o quê porque estava me esforçando para não pulverizar o telefone do hotel com minha imensa raiva. Olha eu sendo enganada outra vez, Brasil. Pelo menos a van não precisou parar na volta. Seguimos direto a Blumenau, eu quieta e frustrada por direito.

Passei um tempo trabalhando para mim mesma, atendendo a pequenos clientes. Cansada de trabalhar de pijama, acabei assumindo o laboratório de criação da universidade. Uma bolsa de monitoria me caía bem – mais precisamente, me caía umas centenas de reais bem todo mês – e ainda podia atender meus clientes no tempo livre. Pelo menos uma das minhas decisões não havia terminado em derrota. Aliás, muito pelo contrário: o volume de trabalho não parava de aumentar.

Acabei me aproximando da cunhada do ex-noivo (lembram dele?) porque ela havia acabado de se tornar ex-mulher. Então essa nossa aproximação fez sentido porque nós nos entendíamos bem, compartilhávamos um passado intenso com uma família peculiar e nos divertíamos muito. Também era gostoso ter uma relação sólida de cumplicidade em meio a esse monte de bagunças cardíacas. Quando estávamos meio de saco cheio da vida, minha amiga querida e eu marcávamos almoços num fast food italiano, onde éramos atendidas pelo dono do estabelecimento. O italiano falava um português todo engraçado e era a única razão pela qual estávamos sempre batendo cartão ali. Ao entregar nosso pedido, ele sempre soltava um: “aceite de olifa?”. A vontade era de responder “sim, pode espalhar pelo meu corpo”, mas acabávamos só concordando com a cabeça, embebendo nossa insalattona em óleo. Suspiros, suspiros.

Foi num dia desses que conheci o amigo belga. O amigo belga era o amigo de um belga que fazia intercâmbio na minha universidade. Esse belga era querido, engraçado e tinha namorada. Eu vivia dizendo pra ele me arrumar um namorado belga e é aqui que voltamos para o começo do parágrafo. Estou tomando um café com a amiga querida quando o belga e o amigo belga aparecem. O belga logo diz: “não era você que queria conhecer um amigo meu?” Obrigada, Bélgica. O amigo belga é lindo e querido e fofo e fala inglês com esse sotaque todo legal. Amiga querida já sacou tudo e manda: vamos a uma festa hoje à noite?

A festa era ruim, a música era ruim, o lugar era ruim. Amiga querida, amigo belga e eu lá, sacolejando no ritmo dos anos oitenta – sei que estou correndo o risco de perder leitores aqui, mas é que pra mim os anos oitenta só foram bons pra indústria do desenho animado. Fui buscar alguma coisa no carro e o amigo belga – querido que era – fez questão de me acompanhar. “Nobody kisses like that in Belgica” foi o que ele me disse depois que pedi licença para beijá-lo. “Lucky you for being around here” foi o que eu disse nos poucos espaços que se sobravam com minha boca só para mim. Bélgica, obrigada MESMO. Os dias com o amigo belga eram coloridos e completamente inspirados. Tanto que fiquei bem abalada quando ele foi embora. Triste mesmo. De verdade. Tanto que fui abrir o coração para um dos meus professores da faculdade.

_Doutor, tô mal. Gostava desse amigo belga e agora sei que nunca mais vamos nos ver.

_Gica, você precisa de Jesus.

_Que preguiça, meu. Você bem sabe que sou atéia e agora vem querer me converter?

_Não, não é disso que eu tô falando. Quer dizer, poderia ser também, mas na verdade é do Ressús.

_Oi?

_Jesús, puedes venir acá? Esa es Gica. Gica, ese é Jesús, que estará acá con nosotros por 3 meses. Viene de México.

Ai, caramba.

 

Continua no próximo capítulo.

 

Você está no Capítulo 8. Não sabe onde essa história começa?

Capítulo 1

Capítulo 2

Capítulo 3

Capítulo 4

Capítulo 5

Capítulo 6

 

1 Comment

  1. Rosi Santos
    04/07/2014

    ansiosa pelo póximo capítulo!

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