Alto.

Posted by on Oct 11, 2016 in Blog, texto, vida | No Comments

O sol bate diferente quando você está mais alto. E quando digo mais alto, refiro-me a bons metros da linha do chão. O vento também. Ele vem de todos os lados e pode mudar de idéia a qualquer momento quando não é contido por prédios, montanhas ou viadutos. Quando você está acima das árvores. As pessoas lá embaixo precisam catapultar as palavras para que cheguem até seus ouvidos, que captam apenas algumas sílabas tônicas. QUE…! AÍ…! PU…! VA…! Ô!  Você consegue fazer sua mente se desligar dessas interferências, principalmente essas vindas de pessoas que agora medem poucos centímetros. A teoria da relatividade estava mesmo certa.

Para se manter lá em cima você precisa de uma integridade muscular sólida, adquirida com dieta proteica e atividades anaeróbicas. Ainda mais num dia como esse, em que o vento testa limites. Equilíbrio. Tanta gente querendo carro importando, sonhando com uma casa maior, desejando sapatos de sola vermelha quando nada pode ser mais precioso nessa vida que o equilíbrio. Dizem que quando você o alcança em seu estado de arte, as aves todas se calam e param de bater as asas por um instante. E também você esquece o próprio nome. Digo: você sabe seu nome, só não consegue pronunciá-lo. Pensando bem, não faz muito sentido dizer qualquer coisa quando se está lá em cima.

Já confirmei com com outros que estiveram nesse lugar que mesmo os equilibrados – e talvez especialmente eles – sentem que vão flutuar, incertos e para cima feito balão de festa junina. Ninguém deveria mais soltar balão em festa junina porque isso pode matar. Mas como esse não é um texto sobre morte – muito pelo contrário, vamos voltar ao ponto que é esse não-voar, mas um ir para cima inflado pelo próprio medo, que tem densidade menor que a do ar. E isso passa a ser um problema porque a idéia toda de se estar lá em cima, na verdade era a de se lançar para baixo.

As mesmas fontes confirmaram que há vezes em que o vento luta a seu favor, de modo que o medo não consegue arrancá-lo da plataforma. Outras vezes, o medo faz os pés voarem em busca dos degraus improvisados com elementos naturais – o que é um perigo, já que esses degraus foram feitos apenas para se subir, e não descer. Errar um degrau aqui será fatal, mas, de novo, não queremos falar sobre morte. Vamos falar sobre quando os ventos ou a coragem vencem o medo e sobre quando você se sente pleno e confiante do seu propósito lá em cima, onde o oxigênio rareia e encher os pulmões fica cada vez mais estranho.

E você salta. Corpo assume formato de lança. Bocas se abrem grandes assim, do tamanho da incredulidade dos presentes. Lá em cima você era seco, agora você é vento para, em segundos, ser água do lado de dentro e de fora. O mesmo rio que recebe seu salto quer te mostrar sua coleção de paisagens pelas margens. Ele tem pressa. Você sobe à superfície e ri. Alcança uma raiz madura, sábia e nodosa. Puxa devagar porque seus músculos ainda não tiveram tempo de entender o que houve, mas sua cabeça sabe que cavalgar a correnteza é uma ousadia maior que perfurar o curso do rio. Puxa devagar para que seu corpo se despeça da água com respeito. Quando chega o primeiro amigo gargalhando, dizendo que você é louco. Você está vivo outra vez.

 

 

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