• setembro 7, 2008

    Anotações


    Então você é um ser humano. Um daqueles que trabalha, que cumpre com suas obrigações pagando impostos, aluguéis e flanelinhas ao estacionar seu carro em locais públicos. Você se esforça para ser uma pessoa boa e julga os outros que não conseguem ser um décimo do que você é.

    Sua família liga vez ou outra e pergunta como você anda encarando a vida. Você responde dizendo que está tudo bem, que o trabalho é maravilhoso e que a cidade oferece infinitas possibilidades. Aí você ouve que seu primo engravidou a namorada, que o vizinho da sua avó morreu e que o colesterol do seu pai está alto.

    Você lembra que precisa cuidar de si mesmo. Troca o macarrão pela salada, a pipoca por torradas de soja light. Se inscreve na academia, paga o plano semestral e sai mais cedo do trabalho para conseguir chegar a tempo de nadar quase dois quilômetros.

    Quando você chega em casa, um punhado de jornais da semana passada o esperam espalhados pela cozinha. O cachorro que você adotou passou o dia inteiro sozinho, se comportando como um cachorro. Você limpa a casa perguntando-se se isso era mesmo necessário. Olha para o cão, tão pequeno, tão inocente, tão tudo. Ele precisa de você, do seu carinho e da sua altura para alcançar o pacote de biscoitos caninos que está no armário.

    O seu humor está um tanto ácido e amanhã você precisa trabalhar. É por isso que nega o convite para a festinha de não sei quem, a balada bacana não sei onde, o café. Melhor ficar no seu lugar. Preguiça de sair com quem você conhece. Preguiça de sair com pessoas novas. Pessoas novas?

    Faz tempo que você precisa delas. Tenta encontrá-las no mundo de pixels, entre twitters, blogs, flickrs, blips, scrapbooks, skypes. Você sempre gostou de conhecer as pessoas pelas palavras, mas todo o processo parece trabalhoso demais agora. Melhor ficar em silêncio.

    Você está bem. Só precisa de carinho. Tudo bem. Abre um vinho e uma revista. Faz de conta que está lendo, quando, na verdade, está pensando na última vez em que se permitiu abrir o coração. Defende-se apontando para si mesmo que as circunstâncias eram outras, que o contexto era diferente. E não há nada de mal em se sentir sozinho. Isso acontece. Você coloca o cão sobre as pernas. Ele reclama, mas logo dorme. Silêncio outra vez. O passado chega para tomar um chá. Um ou dois suspiros o fazem lembrar de quando você somava algo em alguém. De quando tudo virava uma fotografia.

    Subitamente, você desvia os pensamentos para outro lugar. Reviver o passado não ajuda muito nesses casos. Enfrenta o silêncio mais uma vez. Vinho. Acaricia o seu próprio braço, imaginando como seria se aquela mão não fosse a sua. O cheiro de outra pessoa se misturando ao seu e à fumaça dos seus cigarros infinitos. Bem que o telefone poderia tocar. Bem que alguém poderia tocar você.

    Os riscos são altos demais. Você pode se machucar outra vez, pode se decepcionar tanto. Você pensa de novo. Tira o moleskine da bolsa e sentencia:

    anotações.

    Melhor esperar o dia terminar.



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    Postado por Gica Trierweiler @ 01:27:33 pm
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Comments

  • Bia 16:01 on 07/09/2008 | #

    nossa.
    poderia ser eu escrevendo esse texto.

  • Fábio Ricardo 19:37 on 07/09/2008 | #

    cara, que merda.
    bateu fundo.

  • Anacris 20:59 on 07/09/2008 | #

    Suspiro…

  • evo 6:30 on 08/09/2008 | #

    urso mode [ON]

  • Cleyton Cabral 14:40 on 08/09/2008 | #

    Adorei pisar aqui. =D

  • juperissinoto 18:50 on 08/09/2008 | #

    reciprocidade.
    é isso!
    ;)

  • Elesbão 2:47 on 13/09/2008 | #

    Inspirador, forma e conteúdo.

  • gabriel 13:56 on 14/09/2008 | #

    tão particular e tão pra todo mundo.

  • Regi 11:06 on 22/09/2008 | #

    Esse post foi feito pra mim no dia de hoje.
    Adorei o show ontem! Tava tão lindo pra mim. Pena que hoje o dia amanheceu tão triste..
    Beijo

  • adelle 16:16 on 22/10/2008 | #

    que bonito

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