Bibelôs do inferno e a bunda do vovô – uma história verídica.

Posted by on Sep 17, 2012 in Blog, eu que fiz, novela, vida | No Comments

Eu trabalhava de manhã na academia da minha mãe e à tarde na universidade: era bolsista – produzia e apresentava um programa de televisão para o canal universitário. A noite estava reservada à faculdade e as madrugadas traziam algumas surpresas vez ou outra.

Depois de semanas de vida independente, minha mãe passou a falar comigo outra vez. Me encarando como adulta e capaz de tocar minha vida, fomos descobrindo um novo relacionamento entre nós baseado em confiança e cumplicidade. Agora eu era visita na casa da minha mãe. Esse era um movimento interessante na família, incluindo o filhote de dálmata recém-adquirido que tinha como missão ocupar o meu lugar.

Tudo certo na família, no trabalho e no coração. O namorado legal era a tampa da minha panela e eu tinha essa conexão maluca de saber quando ele estava chegando ou o que ele estava fazendo. Achava isso muito maluco, mas essa era uma das pequenas maluquices que me faziam feliz. Então alguns conflitos começaram a surgir.

Ah, não estou falando do relacionamento. Refiro-me à pseudo-dona da casa, a que tinha o contrato do aluguel em seu nome e era dona de quase todos os móveis do apartamento. Aquela, que tinha mania de limpeza. Aquela, que tinha MILHÕES de ímãs horrorosos na porta da geladeira. A que também mantinha os bibelôs de quinta na mesa e em todas as superfícies horizontais possíveis do nosso lar. Essa que tinha acabado com o carioca daish piadaish ruinsh e resolveu despirocar.

Houve um dia em que eu estava chegando em casa tarde da noite e, ao abrir a porta da sala, dei de cara com uma porção de mórmons. Nada contra os mórmons, pessoal. O apartamento era muito pequeno então, fosse onde eu fosse, continuava escutando a conversa da pseudo-dona com eles. Era um tipo de entrevista misturada com evangelização. Quando eles saíram perguntei do que se tratava e a resposta foi: “trabalho de aula”. Mas você acha que essa é a coisa mais estranha que pode acontecer com uma roomate que estuda Serviço Social? Rá.

Nessa linda época da minha vida, uns amigos e eu resolvemos criar um grupo de produção de cinema dentro do curso de Publicidade & Propaganda da nossa universidade. Fazíamos curta-metragens legais e isso nos deixava com aquela sensação adolescente de poder de transformação e tal. Houve um feriadão que foi dedicado às captações de imagem do nosso novo filme. Como tudo o que usávamos era emprestado – inclusive nossa locação – gravamos por basicamente 3 dias sem parar. Quando cheguei em casa no domingo à noite, tudo o que eu queria era tomar um banho e desligar o cérebro. Até que algo me chamou atenção.

No meio da sala havia um violão absolutamente vivido. Estava arranhado, lascado, tinha buracos, parecia sobrevivente do Titanic. Ao seu lado estava um expositor de brincos, desses de chão mesmo, e uma mochila gigante toda estrupiada. A pseudona (vamos chamá-la assim, fica mais fácil) logo apareceu e, quando questionada a respeito das coisas largadas ali, respondeu: Ah, são do Beto. Eu não conhecia nenhum Beto. Ela emendou: ele é o máximo! Está tomando banho e já vem. Você vai adorar conhecê-lo. Jura?

Beto era um andarilho. A pseudona levou ele para casa, deu uma porção de comida, um freepass no chuveiro, toalhas felpudas e um lugar ao seu lado na cama. Sim, essa mulher estava coletando pessoas na rua. Fosse trabalho de aula ou não, eu fiquei revoltada ao pensar que meu querido chuveiro – e o único da casa – estava ocupado com um ser humano que muito provavelmente não tomava banho há meses. Beto saiu do banho feliz e com cheiro de lavanda. Tentou me encantar escrevendo meu nome com arame e eu… afe, eu fui tomar banho e dormir. No dia seguinte encontrei um porta-incenso ao pé da minha porta. Presentinho do Beto pra você. Right, pelo menos não era um duende de durepox.

Em uma outra ocasião, havia um personagem novo na história. Pseudona estava namorando com um colega da faculdade, o que garantiu menos visitas bizarras. A questão é que era bizarro vê-los juntos porque o cara deveria ter 2,8 vezes a idade dela. O cara era velho do tipo cabelo cinza, cara enrugada e pulôver. Um dia cheguei em casa contente e quis compartilhar essa alegria com o mundo. Bati na porta dos respectivos quartos das minhas roomates, a colega jurista e a Pseudona, oi, gente! cheguei! alegria!  Uma delas mandou um entra aí e aqui vai uma coisa que eu esqueci de contar antes: colega jurista e Pseudona tinham vozes parecidas. Foi por isso que eu entrei no quarto errado e vi a bunda murcha e pelada do vovô em meio a uma cena sexual que eu juro que não queria ter visto. Gritei e fechei a porta. Risadas tomaram conta do lugar enquanto eu tentava – em vão – apagar os últimos 30 segundos da minha mente. Foi quando eu resolvi que precisava de outro lugar para morar.

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