Blusa.

Posted by on Oct 10, 2016 in Blog, texto, vida | No Comments


Faço listas de afazeres de vez em quando. Especialmente quando minha atenção engata em toda e qualquer coisa que não as coisas que preciso fazer. Listas comprimem meus pensamentos que até resistem, mas acabam obedecendo. MALA tem sido um item frequente. MALA é bom e ruim. É bom porque me tira desse lugar. É ruim porque dá trabalho: tem que fazer a lista toda E MALA. Aos olhos mais desatentos, MALA pode significar apenas juntar pertences condizentes à dona, harmonizados com as condições climáticas do destino, conjugados às ocasiões das quais se pretende participar. Isso dá trabalho. Mas o pior é que MALA significa também que sua lista de afazeres precisa ser mesmo concluída porque você está (se) partindo.

Dia desses fui fazer uma mala diminuta para um bate-e-volta num lugar frio e cinza. Minha seleção foi tão monocromática quanto. Tive dificuldades em achar as blusas de frio porque quando se vive em temperaturas que flutuam entre 29 e 31°C, você acaba preenchendo suas gavetas (e a si próprio) com outras coisas. Faltava meia hora para o táxi chegar e nada da minha blusa de frio. Vestidos, camisas, roupas esvoaçantes que não dariam conta dos doze, dezoito graus. Blusa, vem. Blusa, eu nunca te pedi nada. Na última gaveta, onde deveriam estar os edredons aposentados, era lá que estava a blusa. Dobrada, prometendo aquecer torso e membros superiores e pescoço e quem sabe até um coração, oras. Sorria pra mim e me hipnotizou a ponto de me fazer enfiar a cara inteira ali, só para cheirá-la.

_Amor, essa blusa tá com cheiro de alguém.
_Oi?
_Cheira aqui. É de loção pós-barba.
_Não sei se eu quero cheirar isso.
_Que engraçado.

Era um cheiro familiar. Fiquei repassando muitos rostos e coisas na mente enquanto descia para pegar o táxi. Quando chegava a um suspeito, cheirava a blusa outra vez pra associar os dois sentidos e… nada. Fico tensa no trajeto da minha casa até o aeroporto porque leva meia hora, porque o caminho é deserto e porque é sempre início da madrugada. E tem isso da minha cabeça usar todo e qualquer elemento disponível para montar cenários possíveis. Uma vez expliquei o modus operandi do meu cérebro para meu marido assim:

“Se eu tivesse seis peças de Lego ao invés de um cérebro dentro da cabeça, essas peças estariam constantemente encaixando e desencaixando. O tempo todo. E não sei se você sabe, mas com seis peças de lego de oito pinos dá pra formar 915103765 combinações diferentes.”

Ele riu. Eu não. Isso cansa. Funciona quando você precisa arrumar soluções criativas para problemas, mas o maior problema é que não para. Então imagine que se estou num táxi conduzido por um homem que não sei de onde veio, nem pra onde vai, numa rodovia escura e deserta no início da madrugada, eu penso:

  1. No taxista cansado, depois de um turno longo, dormindo no volante e no nosso carro se chocando contra um dos tantos galpões industriais à beira da BR-116.
  2. Em assaltantes que nos interceptam em alguma parte do caminho, roubam minhas coisas, o dinheiro do taxista – e aqui ainda há uma subdivisão porque eles podem apenas roubar e seguir, roubar e nos agredir, roubar e nos sequestrar, roubar e me estuprar, roubar e nos matar ou uma combinação de todas as anteriores.
  3. Nos buracos infinitos dessas ruas e rodovias engolindo uma parte do carro, fazendo o pneu explodir, o veículo capotar, nos jogar do outro lado da pista, quando somos atingidos por um caminhão em alta velocidade.
  4. No meu celular, esquecido em cima da mesa.
  5. Nas intenções do taxista: me pergunto se ele pretende mesmo me levar ao aeroporto em segurança ou está há meses sem conseguir fazer sexo com sua mulher por causa daquele problema que eles tiveram, e ele passou por um dia ruim, e já está tão tarde, e ele está tão puto, e onde já se viu e bota a mão na minha perna e no resto não quero nem pensar.

Esse foi só um exercício rápido. Eu falei que o trajeto dura mais ou menos meia hora, não falei? Pois são trinta minutos de projeção de cenários. Às vezes ouço música para ocupar a cabeça com outra coisa. Às vezes simulo ligações telefônicas – mas pra quem se liga à 1:32 da madrugada? Conversas nesse horário nunca são boas e, tragédia por tragédia, prefiro ficar projetando minhas próprias desgraças a inventar outras.

Fico feliz ao pisar no aeroporto barulhento, mesmo nesse horário. É sempre um mar de gente que não passou tanto protetor solar quanto deveria, com cara de sono por cima de caras de quem desfrutou de bons dias regados a coisas alcoólicas e camarões, caranguejos, queijos coalhos (qual é o plural de queijo coalho?). Se esbarram com malas grandes, reclamam das filas meio bocejando, meio sorrindo. Olho para minha pequena cúmplice, malinha do tamanho exato do compartimento da cabine, de modo que dificilmente serei vista numa fila de despacho de bagagens novamente.

Já no portão de embarque admiro a maneira como as coisas vendidas em qualquer espaço aeroportuário têm seus preços multiplicados por 2,3. Foram vinte e três reais por uma empada e uma água com gás. Você não está pensando direito no preço real das coisas às 2h, quando deveria estar dormindo, principalmente depois de ter dado conta de toda uma lista de afazeres. Principalmente depois de ter condensado sua vida numa mala. E olho para a blusa. Na verdade, aguardo meu embarque abraçada a ela.

Não lembro muito bem do vôo e isso me alegra. Vôos insones me deixam operando com um terço dos neurônios de que preciso para o básico. Avião, finger, saguão, táxi – a temperatura caindo mais a cada troca de ambiente. Visto a blusa e aquele cheiro familiar me envolve, acolhe, abriga. Desisto de tentar associá-lo e vou vendo a paisagem acontecer pela janela. Paisagem que amei e odiei, alternando momentos. As coisas aconteceram rápido demais. No passado e agora: logo já era hora de voltar. Não dormi no vôo de volta. Li, meditei, fiz palavras cruzadas e pensei um pouco em outras coisas além de 259 maneiras daquele avião cair.

Ao passar pelas portas do aeroporto, o calor com cheiro peculiar de coentro e material de limpeza e palha da cidade quente me recebeu. Tratei de pular num táxi que aceitasse cartão e que já estivesse com o ar condicionado ligado – quase mais difícil que acertar a quina da loteria. Cheguei em casa, estacionei a mala na área de serviço. Marido estava na cama, do mesmo jeito que o havia deixado no dia anterior. Beijo-ritual de quem se beija todos os dias há oito anos. Dou um suspiro de cansaço e satisfação. Decido descansar um pouco antes de ir para o chuveiro. Ao tirar a blusa sou sugada para dois anos atrás. Dezenas de caixas, fitas, QUARTO, SALA, COZINHA escritos por mãos semi-analfabetas. O piso de taco palito que ele escolheu só porque eu gostava. As dicróicas na entrada que davam um climinha na sala. A horta no quintal. O mato ali atrás. Os vizinhos estranhos e queridos na medida certa. A celebração com a chegada dos armários planejados. O mármore errado que o moço botou na suíte e eu dizendo que tudo bem porque aquele negócio fazia muita sujeira pra trocar. O primeiro café da manhã.

_Cheiro da nossa casa.
_Oi?
_Essa blusa tem o cheiro da nossa casa de São Paulo. A última vez em que usei foi lá.

Guardei a blusa no mesmo lugar, sem colocá-la pra lavar. Talvez ainda possa me levar de volta pra casa na próxima viagem.

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