Conversa

Posted by on Nov 2, 2016 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

A verdade é que a minha vontade de te amar é maior que o amor que eu sinto. Se a gente fosse fazer essa matemática, ia dar pra ver de longe. Ninguém percebeu ainda porque eu finjo bem, porque eu cansei de não ser de ninguém e porque eu realmente quero te amar. Me esforço de verdade, principalmente porque você tem as coisas todas que eu sempre busquei, mas nunca encontrei coladas numa pessoa só:

1) Fã de Radiohead e/ou Weezer e/ou Sunny Day Real Estate e/ou Stone Temple Pilots;
2) Que me desafiasse intelectualmente;
3) Altura maior que 1,76;
4) Que falasse outro idioma além de português;
5) Fã do Michel Gondry;
6) Que gostasse de dançar;
7) Que usasse cachecol em dias frios;
8) Que já tivesse tido algum trauma de relacionamentos;
9) Que precisasse de (bom) café;
10) Que gostasse de transar tanto quanto eu.

Você corresponde a tudo isso e as nossas fotografias saem todas bonitas, mas percebi que nossa relação é uma soma de protocolos esperados de jovens adultos de roupas listradas e cigarros na ponta dos dedos. Tomamos sucos de sabores exóticos e cafés gourmet, passeamos com seus cachorros, vemos instalações artísticas e shows dos nossos amigos. Temos algumas discussões e de vez em quando você perde a mão na rispidez e faz coisas que quase – quase – me fazem querer desistir, mas depois você pede desculpas e diz que tudo-bem-isso-acontece-com-todo-mundo e que fico bonita de um jeito diferente quando choro. Nossas fotografias saem especialmente bonitas depois que brigamos e eu sou obrigada a concordar, mas isso tem me incomodado porque eu tenho essa sensação que não sei explicar qual é, mas talvez seja só o vazio.

O vazio que está lá quando a gente toma os sucos, os cafés, as decisões, os táxis, os caminhos. O vazio que – desculpa por nunca ter te contado isso, mas é verdade – transa com a gente desde a primeira vez e gosta de ficar aninhado no meu peito. Às vezes eu faço de conta que durmo só pra esconder de você esse buraco negro que certamente transparece no meu olhar quando a gente está sem roupa e de pernas enroscadas. Mas na fotografias estamos bonitos e insinuando cumplicidades e por algum tempo isso foi suficiente, essa colagem de registros que pareciam saídos de algum filme com trilha sonora do Yan Tiersen.

A verdade, verdade mesmo é que eu sabia exatamente quando você ia dizer “Eu te amo” porque estava escrito em cada movimento seu, desde que você pegou as minhas mãos e me olhou como se estivesse tocando a campainha da minha alma, mas é isso, a verdade é que ninguém jamais atenderia. Por isso eu tossi, simulei um engasgo maior que aquele momento e fui tomar banho e reclamei da relação que tenho com meu chefe e fui a favor da reforma ortográfica. Foi ali que eu entendi que a gente precisava ter essa conversa e eu sei que isso faz tempo, mas eu só consegui agora. E por carta. Porque eu tenho vergonha. Mas eu tentei. Desculpa.

 

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