Cristina.

Posted by on Nov 1, 2010 in Blog, texto | No Comments

Cristina, eu te amo“, ele não cansava de repetir. Ela sorria sempre que Gustavo vinha com essas doçuras. Todos olhavam para os dois com aprovação. “Nasceram um para o outro“, diziam os conhecidos. Diariamente, Gustavo acordava Cristina com uma ligação telefônica que parecia não ter fim. Sussurrava que o sol estava nascendo para ela e que não via a hora de acordarem juntos para sempre. Sonolenta, Cristina sorria.

Os pais celebravam o relacionamento dos dois. A ex-namorada de Gustavo implorava pela volta. Os colegas sempre convidavam o casal para as festas. Vez ou outra, figuravam na coluna social do jornal da cidade. Era o amor estampado por todos os lados. “A Cristina é que é sortuda“, cochichavam as línguas pelos cantos. Quando ela ouvia, sorria.

Cristina se sentia bem ao lado de Gustavo. Se era feliz? E como não poderia ser? Apesar de Gustavo ser o seu primeiro namorado (embora tivesse beijado outros rapazes do colégio algum tempo antes de conhecê-lo), sabia que estava com o homem que seria seu por toda a vida. Sorria ao pensar nisso, traçando comparativos com gente que vive décadas buscando a pessoa ideal e ela, justo ela, havia encontrado a sua com dezenove anos.

Gustavo agradecia aos céus por ter Cristina. Sentia orgulho e verdadeira adoração pela garota, tanto que não olhava para nenhuma outra (e não faltavam insinuações por parte delas). Amava Cristina com todo seu corpo, com toda a sua alma. Vibrava ao pensar no dia do casamento e no que viria depois disso: casa, filhos, netos. Sempre que conversava com ela sobre o assunto, Cristina sorria. E ele a amava mais ainda.

Certa dia, Gustavo recebeu um convite da empresa na qual trabalhava. Um curso de especialização em uma universidade alemã com todas as despesas pagas. Começou a chorar imediatamente. Não podia suportar a idéia de passar um ano inteiro longe de Cristina. Ao mesmo tempo, se recusasse o convite, seria demitido. Sem emprego, não poderia continuar poupando para comprar a futura moradia do casal.

Chamou Cristina, que foi correndo até sua casa. Desfiou o discurso mais bonito e romântico e apaixonado e emocionante enquanto abria uma caixinha com duas alianças douradas. “Cristina, quer ser minha noiva?“, proclamou entre lágrimas. Cristina sorriu. Fizeram a troca de alianças e se beijaram. Em seguida, Gustavo falou a respeito da viagem. Sorrindo, Cristina disse que era uma ótima notícia e que o tempo passaria rápido demais. Com o coração apertado, Gustavo custou a concordar.

No dia da viagem, longa despedida no aeroporto. Juras de amor, pães de queijo e beijos desesperados. Gustavo chorava e Cristina sorria. Assim que pisou em solo europeu, ligou para a noiva. Reclamou do clima, da aspereza das pessoas, da saudade. Cristina sorria e dizia que ia passar bem rápido.

Gustavo ligou todos os dias, durante meses. Falava que apesar de não dominar o idioma fluentemente, costumava conversar com os vizinhos e com os novos amigos sobre ela. Contou que todos na Alemanha desejavam o melhor para os dois. Confessou que arrancava as folhas do calendário, esperando pelo dia marcado na passagem de volta para o Brasil, para os braços dela. Cristina olhava para a aliança brilhante na sua mão direita e sorria.

Até que um dia ela resolveu ligar. Ele ficou surpreso e logo começou:

_Mas que surpresa boa, meu amor! Eu estava mesmo pensando em você.
_É mesmo, Gustavo?
_Sim, eu penso em você o tempo todo.
_Eu também tenho pensado bastante em você.
_É mesmo, fofinha? Eu estava pensando que você é a garota mais linda de todas e que eu sou o homem mais sortudo do mundo porque tenho você.
_Que lindo.
_O que você estava pensando sobre mim?
_Quando é que você vai me pegar de jeito?
_O quê?
_Isso mesmo.
_Cristina, do que você está falando?
_Estou falando que quero ser comida.
_Meu amor!
_Me chama de puta?
_Cristina, o que houve com você? Onde está a minha noiva tão doce? Você está me assustando assim.
_Gustavo, me fala uma sacanagem?
_Não acredito no que eu estou ouvindo.
_Não chora, pelo amor de deus.
_Mas como eu não vou chorar? Olha pra você! Quem é você, Cristina?
_Gustavo, cansei dessa melosidade toda.
_Cristina, pára, eu te amo.
_Se me ama, então diz que vai meter em mim quando chegar.
_Eu não consigo dizer isso.
_Então não precisa mais voltar.

Cristina desligou o telefone. Ela sorria.

*Este é um texto velho, escrito nos idos de 2007, num dia em que eu quis ser Nelson Rodrigues.

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