Da calçada

Posted by on May 22, 2016 in Blog, texto, vida | No Comments

Um rapaz de camiseta de manga comprida cor de telha, óculos e os cabelos num formato meio nuvem, meio ninho. Ele andava devagar, não porque não tinha pressa, mas porque não queria chegar a lugar algum – evolucionistas devem ter alguma explicação pra esse fenômeno nosso de andar vazio em situações estranhas. Uma mão segurava o celular na orelha, a outra tentava anular a entrada de ruídos no lado oposto. Não consegui perceber se ele dava ou recebia uma notícia, mas definitivamente, ficou claro que não era uma notícia boa. As sobrancelhas arqueadas e o olhar perdido láááá longe no “e agora?” não deixavam dúvidas.

O rapaz ainda não havia desligado o telefone quando um carro preto embicou no portão. Um senhor, uma senhora e duas pessoas atrás (de sexo indefinido por excesso de insulfilm nas janelas) estavam lá. O senhor era desses resolvedores. O típico humano a quem se recorre em qualquer situação desestruturante, desde “alguém sabe o que aconteceu com essa impressora?” a “mamãe tem um tumor no cérebro”. Esse tipo de gente que absorve o impacto do choque e parte pra solução, diferente dos outros noventa e muitos porcento que 1) recebe a notícia, 2) paralisa, 3) se desespera, 4) pede ajuda, 5) chora, 6) recebe ajuda, 7) elabora algo, 8) soluciona ali, do jeito que dá, 9) sai mancando, 10) reclama da vida e suas injustiças. Pois foi esse o senhor que embicou o carro preto no portão enquanto a senhora que o acompanhava descontava sua tristeza num lenço novo. O mesmo senhor que soube exatamente o que fazer quando o funcionário da casa colocou uma plaquinha diante de seu carro que, com letras douradas, dizia L O T A D O. Guiou o carro até o estacionamento ao lado.

O moço cor de telha agora estava encostado no muro da casa, olhando pra frente, mas não vendo nada. Quis abraçá-lo. Cheguei a dar dois passos e meio na sua direção, mas meu táxi chegou e meus pés corrigiram a rota e eu estava meio atrasada e sim, pode colocar no porta-malas, e Augusta 2676 e pode escolher o caminho, desde que a gente chegue logo.

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