Era eu.

Posted by on Jun 24, 2013 in Blog, eu que fiz, vida | 3 Comments

E havia sempre a necessidade de ser mais e estar por cima. De fazer todo mundo aplaudir minha história do roteiro inusitado, das personagens peculiares, dos desfechos inéditos. Foram anos avaliando diálogos em tempo real, esperando a linha certeira, escrita por Caio Fernando Abreu. Esse é o perigo de crescer numa cidade monótona. O perigo de virar bobo da corte municipal, válvula de escape coletivo, receptor das projeções de todo mundo.

Então vivi procurando problemas novos diariamente, mensalmente, anualmente. A sensação de que bastava uma idéia para romper com tudo e ser mais que maior, estar mais que por cima. Saí de lá muito depois, mas esse modus operandi ficou regendo a memória da minha carne até cinco minutos atrás, quando percebi que a gente não foi feito pra tanta emoção.

Senti vergonha e quis pedir desculpas para mim mesma por ter forçado tanto a minha própria barra. Por ter me deixado levar pela cobrança dos outros e me tornar fascista de mim, sendo a maior  e mais implacável de todas as cobradoras. Ainda bem que, três minutos atrás, no meio de tanta culpa e repressão, também veio um grande alívio e a permissão de ser mais… leve.

Porque a vida, na sua grande maioria, é uma sucessão de pães com manteiga e café com açúcar ou adoçante. De vez em quando não, mas quase sempre sim. Me faltava essa familiaridade com o não-drama. Com a calmaria linear. Com o oi-tudo-bem?-tudo. Eu achava que isso era aceitar e que aceitar era desistir e que desistir era morrer. E eu não queria morrer. Só isso.

eu em 2005, clicada por alguém no banco de trás de outrém, pensando na frase perfeita como sempre.

3 Comments

  1. MMRC
    24/06/2013

    Também eu.

  2. Carolina
    24/06/2013

    Hoje eu escrevi um post sobre um fim de semana na praia em que eu não fiz nada, mais que a posição-galeto-número-3. Fui lá mesmo fazer nada, algo que eu não tenho o costume de me permitir. Quero aprender a viver o pão com manteiga e o café com leite do dia-a-dia sem me cobrar tanto, sem querer ser mais o tempo todo, sem ter planos mirabolantes sobre o meu futuro… mas eu sinto a “insuportável leveza do ser” e um vazio no peito tremendo. Tô quase bolando outro plano. Hehehe.

  3. Laura
    25/06/2013

    “Eu também” foi a primeira coisa que me passou pela cabeça quando terminei de ler esse texto…
    A gente se cobra tanto, né?
    Mas ando descobrindo que mesmo os dias mais pão-com-margarina têm a sua beleza… De uma forma meio monótona, é verdade, mas até eles conseguem surpreender… =)

Leave a Reply