Era pra eu ter ficado mais (ou “um conto soft porn meladinho sem gênero”)

Posted by on Jul 6, 2016 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

Eu não queria ter ido embora na hora que fui. Era pra eu ter ficado mais. Era pra eu ter ficado mais confortável na situação de estar no seu apartamento, tão maior e diferente do meu. Era pra eu ter ajudado com a amiga que achou que uma bebida chamada ABSINTO não poderia fazer mal algum. Era pra eu ter levado as outras garrafas para o reciclável. Era pra eu ter aceitado o café que você ia oferecer depois que a gente deixasse as coisas setenta por cento organizadas – ainda que eu não seja muito fã de café, principalmente às duas da manhã. Era pra eu te fazer rir – você não sabe como me sinto INCRÍVEL quando te faço rir. Era pra eu surfar nesse meteoro da minha auto-estima elevada e pegar no seu cabelo olhando no seu olho porque eu estaria podendo muito fazer aquilo. Era pra eu te puxar pra mim, tão perto a ponto de uma língua esfregar na outra naquele suspiro recíproco que desmancha a tensão e endurece mamilos. Era pra eu me surpreender positivamente com a sua excitação e, com isso, pegar outra onda de auto-estima, bem um tsunami, na verdade. Era pra eu ter pedido desculpas por ter rasgado sua blusa nova. Era pra você ter respondido com um tapa na minha cara. Era pra eu quase ter morrido de tesão por isso. Era pra eu ter cuspido na sua mão. Era pra você ter entendido esse recado – e você teria entendido porque você é sagaz como poucas pessoas que conheço. Era pra você ter melado tudo. Era pra eu ter pedido mais. Era pra sua perna tremer enquanto você gozava na primeira vez. Era pra eu precisar fazer força pra acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Era pra gente chapar no tesão da gratidão por estar ali. Era pra você propor umas coisas fazendo sem perguntar antes e era pra eu gostar tanto disso. Era pra eu sentir o maior alívio, inclusive, por estar me permitindo gostar. Era pra eu gozar de um jeito quase vexatório porque teria sido intenso – e eu tenho essa tendência a verbalizar intensidades com. palavras. meio. fora. de. contexto. sem. formar. frase. alguma. mas. que. precisam. ser. ditas. Era pra eu ter ido buscar um copo d’água. Era pra eu ter levado um pra você. Era pra você ter dado um gole e ter jogado o resto da água em mim com uma expressão de safadeza tão, mas tão maravilhosa. Era pra ter começado tudo de novo, só que melhor porque na segunda vez o ponto de partida é bem outro e porque estava tudo mais molhado. Era pra ter sido divertido. Era pra gente terminar sem roupa, conversando, ora olhando pro teto, ora olhando no olho. Era pra eu, vez ou outra, levar a sua mão na minha boca só porque sim. Era pra você sorrir. Era pra eu ter sorrido por isso. Era pro despertador ter tocado e você dizer meio gargalhando, meio na incredulidade “caraca! olha isso! já são seis e meia, a gente não dormiu e agora eu supostamente tenho que acordar, tomar banho, café e ir pro trabalho.” Era pra gente ter rido meio no desesperinho de quem já passou da idade de bancar uma noite virada pra conseguir performar sem prejuízos no dia seguinte. Era pra você ter ido pro chuveiro enquanto eu viajava mais um pouquinho no seu lençol. Era pra eu ter tomado uma ducha sem muito esforço porque eu não queria tirar o nosso cheiro de mim. Era pra você estar com o cabelo meio bagunçado, me estendendo uma caneca de café logo na saída do banheiro. Era pra eu ter feito uma foto sua amarrando os cadarços. Era pra você ter me dado um beijo com hálito de café e creme dental no elevador. Era pra eu ter pensado que mais dias assim poderiam acontecer. Era pra você ter ido pra garagem sorrindo. E daí sim, era pra eu ter ido embora.

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