Escapadas.

Posted by on Feb 18, 2014 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

Um desses dias em que você acorda descolado do corpo e, ao invés de sair voando por aí, você para e olha. E pensa. Percebe que o que cola cada ação na outra é uma goma transparente que adere bem à sua pessoa e às últimas escolhas que você fez. É boa essa cola porque ela dá sentido ao bolo e faz essas coisas parecerem parte de algo maior, por mais que  você esteja todo quebrado por dentro.

É bem em dias como esses que a maioria das pessoas com tendências suicidas chegam às vias de fato. Os pragmáticos pedem uma receita nova ao psiquiatra; os fervorosos rezam em rituais intensos; os submissos choram exaustos. Eu paro e olho tudo o que essa goma colou em mim. Fica mais perigoso quando me pergunto se esse coletivo de decisões é mesmo meu e a serviço de quem ele está. Minha parte descolada do corpo fica tensa. O corpo reage com algum sintoma de virose ou resfriado.

Até que a sua assimetria essencial vaza num acidente cotidiano. A xícara que não resistiu à força da gravidade, o dedinho do pé que preferiu ficar na porta. No grito que acompanha essas nanocatástrofes está o chamado de uma camada mais primitiva que o subconsciente. Na verdade, é o sensor de fumaça do instinto de sobrevivência. Um pedido imperativo pela ordem e consistência das duas partes.

Então os suicidas choram arrependidos. Os pragmáticos vão discutir antropologia em níveis primários. Os fervorosos sentem a presença do espírito maiúsculo. Os submissos respiram fundo. Eu faço listas racionais descrevendo as tarefas que tenho para o dia e como espero que as pessoas se lembrem de mim quando colado e descolado não tiverem mais importância nenhuma.

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