Eu tive um sonho.

Posted by on Jan 31, 2012 in Blog, texto | No Comments

E a gente estava voando. Não voando feito Superman que é o que a gente faz quando sonha. A gente estava voando de avião, mesmo. A gente o Fábio, meus pais, algumas pessoas da agência, amigos e eu. Todo mundo estava feliz porque parecia que aquele era o voo de volta de uma viagem superlegal. Lembro que a luz do sol entrava na cabine e fazia uns desenhos no teto e pelas paredes. Quando olhei pela janela, vi uma São Paulo com cores de Miami. Talvez até houvesse um par de flamingos na paisagem, mas isso eu realmente não me lembro.

O capitão estava anunciando que as condições para o pouso eram ótimas e que a temperatura local era de. E ninguém nunca soube a temperatura local. Até porque isso não importa quando o avião cai e o nosso estava caindo. O capitão esqueceu o áudio aberto e dava para ouvir algumas coisas que ele dizia entre os gritos dos passageiros. Ele dava instruções no idioma dos pilotos ao mesmo tempo que xingava. Meu pai estava na fila ao meu lado e, com o corpo completamente colado ao banco como se estivesse sendo sugado pelo estofamento, ele gritava ESSA MERDA VAI CAIR ESSA MERDA VAI CAIR ESSA MERDA VAI CAIR e a voz dele perdia a consistência por causa do pânico.

O Fábio também estava em pânico. Na verdade, todo mundo estava. Aquela cabine simulava um liquidificador por dentro e eu via os prédios chegarem mais e mais perto dos meus olhos. Então eu, que até então não havia me manifestado, disse que todo mundo podia ficar calmo porque o avião não ia cair. É claro que ninguém me ouviu porque quande se está em pânico o que menos se faz é ouvir. Eu repetia que gente, tudo bem, gente, não vai cair não. Eu tinha certeza de que tudo ia dar certo. E ninguém parecia me ouvir ou, se ouvia, ninguém parecia assimilar o que eu estava dizendo.

Aí eu senti uma coisa abrindo espaço no meio da minha cabeça e essa coisa era uma dúvida e ela tentava se acomodar entre minha certeza e calma. Por um momento pensei que todos os passageiros estavam certos de que a gente ia morrer e eles estavam se preparando pra isso e só EU achava que a gente ia pousar e viver e mudar de vida por causa dessa experiência de quase morte. Me perguntei se eu não poderia estar errada, mas antes mesmo de concluir a pergunta, já havia voltado a certeza plena de que a gente ia mesmo pousar e sair vivo daquela.

Por mais que eu tenha visto e pensado tudo isso, as coisas aconteceram bem depressa. Também foi depressa que o piloto quase arrancou o manche e fez o avião furar a gravidade céu acima. E nessa hora veio um silêncio. Máscaras de silêncio caíram sobre nossas cabeças e o piloto fazia a aeronave parecer uma contorcionista alada e por mais mais que todos estivessem de olhos abertos, ninguém realmente viu o que aconteceu. Quando a emoção é muito grande ela ocupa todo o espaço dentro da gente, e quando ela é muito mais que grande vai subindo até os olhos. Ninguém viu, só sentiu o que aconteceu.

E a gente pousou. No meio de uma rodovia em construção e tudo torto e manco, mas pousou. O avião atropelou as máquinas que estavam na pista, mas tudo bem porque os operários estavam em horário de almoço e a gente foi quicando como se fosse uma bola de tênis que um gigante gigantesco tinha deixado cair lá do céu. Eu sorria e as pessoas começaram a gritar de euforia e rezavam para agradecer uma coisa que era mérito de outra pessoa. Se abraçavam também, falavam muito e paravam de falar. Riam e choravam. Abracei o Fábio bem forte e fui fazer uma coisa.

Abri a porta do piloto e ele estava sozinho. Vocês pilotos da Gol são foda, falei. Eu sei que é patético, mas foi isso que falei, esse product placement no meio do meu sonho/pesadelo/sonho. O piloto era lindo e olhou pra mim com o maior sorriso que já vi na vida. A boca dele não se mexeu, mas eu ouvi obrigado por acreditar em mim quando todo mundo tinha certeza de que a gente ia morrer. Foi por sua causa que eu consegui.

Aí aconteceu alguma coisa, mas não lembro qual era. Acordei estranha. Mais leve, pra dizer a verdade. E passei o dia bem.