-
outubro 17, 2008
Flávia
Flávia tinha verdadeiro pavor de contato humano. Era tida como excêntrica e antipática pelos colegas de trabalho. “Não sei a quem puxou”, dizia dona Heloísa, sua mãe. O fato é que arrepios assombrosos lhe percorriam a espinha toda vez em que se via na obrigação de cumprimentar alguém.
Houve um dia em que foi abordada por um estranho na rua. Quando Flávia sentiu o par de dedos alheios tamborilando suavemente no seu ombro esquerdo, o coração parou, o ar escapou dos pulmões e as pupilas se contraíram. O pânico se instalou de tal forma que não conseguia se mexer. Era o fim.
Excuse-me, lady. I’m kinda lost and I’d like to know where is the art museum. Flávia mantinha-se estática, muda e refratária. O turista caricato tomou um susto com a reação da moça, mas insistiu. Sorry, lady, do you speak english? Sentiu-se leve como nunca. Os joelhos cederam e ela foi ao chão em câmera lenta. Há quem diga tê-la ouvido murmurar algo que soou como um “How do you do?” antes de morrer.
Anthony foi deportado no dia seguinte. Os colegas de trabalho trocaram uma centena de e-mails durante o horário comercial por uma semana. Dona Heloísa converteu-se a uma fervorosa facção cristã, vendeu a casa de praia e doou todo o dinheiro para Jesus.
Tags:conto, contos, ficção
Postado por Gica Trierweiler @ 10:36:59 pm
#permalink |

Fábio Ricardo 16:54 on 19/10/2008 | #
todo mundo é uma ilha.