It’s oh, so quiet.

Posted by on Feb 3, 2012 in Blog, vida | No Comments

Pouco antes de completar 17 anos raspei a cabeça na máquina zero. Só porque sim. E foi todo um negócio porque eu era menina e careca ao mesmo tempo e isso desalinhou planetas, secou plantações na cidade e aniquilou espécies de invertebrados em Madagascar. Muita gente perguntou se eu estava doente. Muito mais gente me via e dizia com cara de horror “nossa, er… ahm… que legal seu cabelo, quer dizer, seu corte, né?“. E eu dizia que adorava e as pessoas ficavam ainda mais incomodadas, mas elas continuavam falando que era legal, diferente, ousado quando elas queriam mesmo dizer que achavam péssimo, absurdo e horrível. A opinião dessas pessoas era importante pra mim? Não. O meu não-cabelo teria algum impacto na vida delas? Não.

Uns 5 anos depois minha avó morreu de um jeito instantâneo do tipo “estou bem-ai-estou-mal” e acabou. Ninguém esperava por isso e, essa história me alfinetou num lugar específico. Fiquei bastante abalada. Fui ao velório e foi só lá que a ficha caiu. Enquanto estava no meu processo de assimilação da dor em meio a lembranças da minha avó e um milhão de questionamentos, pessoas anexas soltavam seus “para morrer basta estar vivo“. Ou o “pelo menos foi rápido“. Ou “parece que ela está dormindo“. Nenhum comentário desse tipo jamais fez alguma diferença, nem nunca vai fazer. Falar para alguém que está sofrendo pela morte de alguém importante que para morrer basta estar vivo é a coisa mais imbecil do mundo. Para levar um chute na canela também basta estar vivo.

E essa mania de comentar se espalhou pela vida digital, é claro. Tanto que acabei abolindo o sistema de comentários do meu próprio blog. Quis ter o direito de ter o meu lugar onde a voz ativa é a minha, sem interferências que, na maioria das vezes, não acrescentavam nada. Eu não preciso da opinião alheia porque  já tenho a minha. E quando preciso, vou buscar em fóruns ou outras ferramentas disponíveis.

Então me lembrei do minuto de silêncio e percebi só agora que ele faz todo sentido. Seu silêncio demonstra o respeito pelo sofrimento, atitude ou opinião do outro e isso é mais valioso do que qualquer palavra. Se você não sabe o que dizer, não diga. Apenas respeite. Vai que lá no seu silêncio você pensa um pouquinho mais e chega em algo realmente efetivo e adequado para falar, né?