Língua

Posted by on Oct 16, 2016 in Blog, texto | One Comment

Não lembro se fazia frio ou calor no dia em que perdi a língua. Não lembro de uma porção de coisas a respeito desse dia, incluindo o próprio motivo pelo qual minha língua desapareceu de dentro da minha boca. Essa é a primeira pergunta que me fazem quando ficam sabendo do ocorrido, aquele “mas como foi que isso aconteceu?” ora fingindo naturalidade, ora flertando com o horror, depende do interlocutor. Acho que antes de perder a língua eu era do tipo que fingia naturalidade ao encontrar pessoas adulteradas pela vida, genética, maldade ou acidente.

De tanto que me perguntam, tatuei na parte exterior do antebraço direito: “também não sei“. Por incrível que pareça, essa foi a resposta que ouvi de todos os médicos que consultei, os do plano de saúde e até um que só atende em consulta particular, cobra R$1200 e já fez uma correção na língua do Plácido Domingo. Levava a narração do que me lembrava num rascunho de email que mostrava pro médico assim que sentava na poltrona do outro lado da escrivaninha. Médicos são médicos, mas em algum lugar são humanos: alguns liam e fingiam naturalidade, outros flertavam com o horror. Você acaba se acostumando.

Não sei como nem por que acordei sem língua numa terça-feira. Havia almoçado em casa – estrogonofe de frango, batata palha, arroz branco, salada de alface orgânico, pepino japonês e azeite de oliva. Configurei o despertador para tocar em vinte minutos como faço todos os dias há, pelo menos, quinze anos – consolidei esse hábito de cochilar depois do almoço porque ouvi um médico desfiar benefícios que iam do aprimoramento da memória à melhora da disposição geral. Dormi com língua, acordei sem. Não houve dor, nem ninguém, nem sangue, nem nada. Foi como se eu fosse assim desde sempre.

Me fizeram avaliações psiquiátricas – não faltou gente me acusando de ter encomendado o procedimento. É incrível a maneira como confundem as mazelas da cabeça em pleno século vinte e um. E é frustrante ouvir certas coisas e não poder sequer se defender de “olha o tanto de anti-depressivos nessa gaveta! Deve ter pirado e pau, cortou a língua!“. Pior ainda foi ouvir disparates desse tipo de pessoas próximas. Por falta de evidências e de registros científicos semelhantes nos anais da medicina, declararam que minha língua havia sumido por causas desconhecidas – e ninguém veio se desculpar comigo pelos insultos.

Passada a fase de negação e raiva, restou-me aceitar a condição. Já foram dois anos e até agora não houve médico capaz de arranjar um jeito de me transplantar uma língua – a coisa foi feita de tal forma que não há onde engatar (esqueci o termo médico) a língua nova. De certa forma também acho que não gostaria de ter a língua de um cadáver se mexendo dentro de mim. De certa forma, às vezes até prefiro assim.

Existem algumas vantagens em não se ter língua. A fila de prioridades no banco, no supermercado e em bilheterias do cinema, por exemplo. O desconto de vinte e cinco por cento quando troquei de carro (duas vezes desde então). As vagas especiais para estacionar, embora outros aleijados (pra você, portador de necessidades especiais. ‘Aleijado’ só a gente pode usar) não acreditam que seja justo que eu pare nessas vagas. E é essa a tatuagem que carrego no antebraço esquerdo: “injusto é acordar sem língua“. Costumo apontar pra ela enquanto abro a boca e quem vê a cena invariavelmente toma um susto – até eu tomei na primeira vez em que ensaiei em frente ao espelho.

Há desvantagens, é claro, como ter que me alimentar exclusivamente com líquidos. Sinto saudades da textura da picanha, dos bagos de feijão sendo amassados e triturados dentro da minha boca misturados à farofa e ao arroz branco. Suspiro devagar quando lembro do pé-de-moleque e logo me vem à cabeça a cena em que quase morri quando mandei tudo à merda e fui tratar de comer um. Ainda bem que estava na cafeteria do hospital. Mas me irritei quando investigaram a possibilidade de se tratar de uma tentativa de suicídio.

Isso de ter a sanidade questionada a todo momento me incomoda mais que não ter língua. É chato não poder falar, ou comer. Em compensação tem o silêncio. O silêncio e um estado de elevação espiritual tão, mas tão alto, que até me faz acreditar que essa vida é muito melhor que aquela que eu vivia antes da cochilada que veio depois do estrogonofe. Você acaba se transformando numa pessoa melhor quando deixa de exprimir opiniões sobre tudo e qualquer coisa e apenas existe. Uma pena é que especialmente quando tento explicar isso, insistem em tentar me convencer de que enlouqueci. Talvez eu tenha mesmo enlouquecido. Ou talvez tenha gente que acorde sem o cérebro. Vai saber.

1 Comment

  1. Karina
    28/10/2016

    Uau, fiquei sem fôlego, tentei ler o mais rápido possível porque meus olhos estavam correndo em busca de mais. Você é incrível.

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