Luísa

Posted by on Mar 22, 2011 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

Não sabia que Luísa tinha tantos discos. Aliás, descobriu que não sabia muita coisa sobre ela no instante em que abriu a primeira de suas inúmeras gavetas. Enquanto a chuva lambia as janelas e o terceiro cigarro queimava esquecido no pires que virou cinzeiro, o íntimo de seus pertences era violado sistematicamente, mas sem deixar vestígios. Não estava ali para roubar, investigar, tampouco para saber mais sobre Luísa. Mas era essa mania de querer conhecer os outros pelo que escolhiam esconder que deixava tudo mais interessante. Além do mais, estava cansada de esperar.

Nina Simone, Cat Power, Belle & Sebastian. Radiohead, Muse, Coldplay e um Rolling Stones de 1965. Cause-I-try-and-I-try-and-I-try-and-I-try-I-can’t-get-no-oh-no-no cantarolava suave ao mesmo tempo em que se surpreendia com a quantidade de comida vencida ocupando lugar na geladeira. Copos, pratos, talheres e embalagens recicláveis formavam um complexo ecossistema transbordando na pia. Se perguntou se deveria lavar a louça, mas limitou-se a fazer uma foto.

Ao voltar para a sala, ouviu os pneus na garagem. Ligou a vitrola e sorriu: Satisfaction era o que estava no ponto. Adorava quando o destino aparecia em momentos como esse porque ele a eximia de toda a culpa. Luísa abriu a porta: estava com três sacolas de compras em uma mão, segurava o celular com a outra. Submersa ao telefone com sua mãe, percebeu um pouco tarde que gritar não adiantaria nada, já que duas balas avançavam em sua direção. Hey-hey-hey-that’s-what-I-say, a outra sussurrava.

Leave a Reply