Madrugada saramaga.

Posted by on May 2, 2013 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

Ui, era frio. Frio, frio, enroscado no vento úmido que batia nos ossos e fazia cachorros se encolherem, prostitutas se arrependerem e, bem, você entendeu. Essas eram as condições climáticas daquele dia em que ela estava acendendo um cigarro a cada página redigida em ritmo de metralhadora, no quarto escuro, iluminado apenas pela tela do computador e a brasa insistente entre os dedos. Enquanto isso, ele olhava para o pequeno foco de infiltração no teto do quarto a alguns quilômetros dali. Não se incomodava muito com o frio porque sua pele era grossa e o apartamento estava aparentemente selado. Foi quando ele teve uma idéia.

Uma mensagem invadiu a tela da mulher que estava questionando a real necessidade de abrir mais tópicos na sua tese. “Acordada fazendo o quê?” perguntava aquele que deveria estar dormindo. Seguiu-se o diálogo trocado na ponta dos dedos gelados:

Tentando terminar esse negócio, mas acho que me perdi

Vai descansar. Amanhã tem aula

Se eu não terminar, não vou conseguir dormir

Se você não relaxar, não vai conseguir terminar

Relaxar? Nesse frio e com tudo isso pra fazer? Alguma sugestão?

Vinho

Não tem vinho aqui

Aqui tem

Mas eu não estou aí

Mas poderia estar

Se eu for praí, nós vamos beber vinho?

E jogar umas metáforas pela janela

Palavras mágicas não fariam com que ela saísse dos pijamas, dos casacos, do cobertor no colo, da aura de nicotina às três da manhã. Metáforas, sim. Não demorou muito até que ela tocasse o interfone com um pouco de vergonha e algum medo da escuridão.

Ele abriu a porta com a pompa comum às madrugadas geladas. Estar naquele apartamento era estranho para ela, que foi só pra ver até onde ele iria. Conforme prometido, o vinho estava lá e as metáforas também. A conversa veio para acariciar cabelos e esquentar mãos sem jeito, enquanto o vinho desamarrava cadarços e bagunçava a ordem das palavras que iam se soltando das frases sílaba por sílaba, até sobrarem apenas “sim“, “mais“, “assim“, “agora“.

O ponto de infiltração no teto agora era analisado por ela, que pensava no que havia acabado de acontecer, no pulo do gato para concluir aquele capítulo da tese e na cara da sua melhor amiga quando soubesse da história toda. Ele balbuciou um “dorme aqui” enquanto ela vestia a calça jeans e suas milhares de coberturas. Chegou a ouvir um “não conta pra ninguém” quando passava a chave por baixo da porta.

No dia seguinte, seguiu um arrepio de ponta a ponta quando o viu entrar na sala de aula. Ele só acenou com a cabeça e foi logo retomando os assuntos de interesse geral “Semana passada, pedi que vocês cruzassem os pensamentos de Saramago e Nietzsche…

 

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