Meet me in Montauk.

Posted by on Dec 21, 2016 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments



Ele falava tudo em poesia. E quando você lê “poesia” não pense em rimas. Não seja raso. Pense em sagacidade. Nos conhecemos numa época em que falar ao telefone era caro e falar na janela do computador custava muito pouco. Nos conectávamos todos os dias e ficávamos quase sempre falando e falando, começando hoje e, puxa vida, terminando amanhã. Sobre filmes, sobre dores, sobre cidades, sobre expectativas, sobretudo. E bem ali, nas entrelinhas, vinha um pedaço de Florbela Espanca, ia uma Lygia Fagundes Telles, voava uma Clarice Lispector ou um episódio de Monty Python ou talvez eu já esteja me confundindo porque, sejamos sinceros, isso foi há tanto tempo e havia tantas janelas. Fiquei com duas coisas dele para a vida: os dois pontos na escrita e a certeza de que homens de trinta e cinco, bipolares, sustentados pela mãe, com uma filha vista ali no de vez em quando não são exatamente uma boa idéia, embora inspirem várias.

Às vezes eu era Ludmila e ele Ivanovich, mas naquele dia na rodoviária, era eu com um cigarro entre os dedos e com a cara enfiada num livro impressionável por motivos de “não-quero-fazer-de-conta-que-estou-esperando-ansiosamente“, mas, você sabe, eu estava. Frio na barriga? Frio na barriga. Expectativas? Todas. Era ele. Um tipo estranho, errado, o meu tipo. Chegou me desvendando e logo ruborizei. Não lembro se nos beijamos ali, mas lembro de ter feito o petit tour pela cidade. Lembro de tê-lo levado a um dos meus lugares favoritos quilômetros acima e agora corro o risco de soar piegas porque vou jurar que 1) era a melhor casa de show de todos os tempos e 2) é uma pena que não exista mais. Estávamos ótimos, absolutos. Fumamos sparkling cigarettes sob as estrelas, bebemos e tudo foi ficando fluido, leve, roteirinho de Michel Gondry. Depois ficou hálito, barba, mão, melado, ofegância, roteirinho não permitido para menores.

Fomos direto para o hotel estilo colonial, pérola européia na cidade européia, com intenções do subsolo do inferno. Num quarto apertado de iluminação que nada favorecia, ele tirou da mochila pacotes de camisinhas que brilhavam no escuro. Eu ri. Ele também. Depois parou. Porque não deu. Porque não foi. E eu ali. E ele ali. Com vergonha. Pedindo desculpas. E eu não entendendo muito bem, uma vez que, veja bem. Ele disse que eram os remédios. Eu disse que puxa. Ele disse que queria morrer. Eu disse que não era pra tanto, mas também não redimensionei a situação e ficou tudo muito estranho. Me conhecendo, devo tê-lo abraçado. Provavelmente dormimos assim. Ou talvez tenhamos dormido de costas um para o outro, não me lembro, mas me conhecendo, devo ter ficado incomodada tentando acalmar todas as expectativas cultivadas ao longo daqueles meses, em cada linha de conversa.

No dia seguinte ele era sombra e eu era angústia. Ele estava no vale da bipolaridade e eu querendo agradar porque, meu querido, cadê o amor todo que você me prometeu? Cadê o fim de semana que eu queria viver e guardar e contar e falar a respeito para os nossos amigos e, quem sabe até, filhos? Claro que não cobrei. Fiz pior: fiquei tentando acertar. Pior ainda: fiquei tentando salvar. Ser a cura de. E confesso: passei boa parte da vida acreditando que tinha esse poder porque às vezes meio que funcionava e era muito bom me sentir importante para alguém. Perceba os golpes de uma auto-estima esquartejada, perceba. A mesma que inflacionava uma promessa de fim de semana de referências bibliográficas, música, cigarro e sexo para planos, relacionamento e estabilidade emocional. Quanta ousadia.

Conforme o combinado, ele voltou para sua cidade. Eu fiquei na minha, até não ficar mais.

Depois de um tempo tive essa idéia: e se na volta dessa viagem a trabalho eu parasse em Curitiba? Seria maravilhoso, ele disse. Eu concordei e fiz uma grande mala e deixei avisado que voltaria dali muitos dias porque, bem, porque eu faria essa parada. De novo borboletas, de novo expectativas, de novo a subida da montanha russa. “Oi, querido. Estou indo. Devo chegar à noite. Me diz seu endereço?” e a resposta começou com ENTÃO. Você sabe o tipo de resposta que começa com ENTÃO. Você sabe que nunca vai ser bom, que nunca vai ter lugar para uma mala e uma porção de mudas de roupa e planos de ir aqui e ali, no sebo e no brechó, na noite e no dia, na boca e no pescoço. Não quando começa com ENTÃO.

“Então, eu preciso te falar a verdade”, disse aquele que não estava muito acostumado a fazê-lo. Aquele que sempre foi fluente foi ficando reticente e o nome dela era Ana, uma ex-namorada carioca, uma doutoranda em qualquer coisa do âmbito das letras, uma loira certamente virtuose literária, alguém mais interessante que eu. Carrinho da montanha russa desceu sem freio e por um caminho com trilhos irregulares. Sobrou pouco de mim no fim da curva. Voltei para casa me sentindo humilhada, decidida a fazer algo ruim comigo ou com alguém. Abri uma outra janela. E semanas depois um pacote apareceu no meu quarto.

 

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