Não, Ronaldo.

Posted by on Nov 14, 2010 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

_Mas eu preciso agora.
_Agora não dá.

Ronaldo odiava – o-di-a-va – tomar uma negativa. Nada poderia soar tão absurdo, tão injusto, tão, tão, tão destestável quanto um “não”. Suas pupilas já estava dilatadas quando suplicou mais uma vez.

_Tem que ser agora.
_Não. Daqui a pouco.

De um salto estava de pé sobre o sofá, transpirando ferozmente e houve quem acreditasse que ele estivesse babando, inclusive. Urrou. Dor, provavelmente. Enquanto isso Carla tentava entrar em consenso consigo mesma: o que combinaria melhor com um ré menor? Ponderou e acabou pinçando um lá menor, por mais clichê que pudesse soar.

Ronaldo morreu e Clara ficou feliz porque terminou a canção a tempo de tocá-la no velório. As famílias se emocionaram, os amigos também. Fazia sol e a nota do obituário terminava assim: deixou alguns parentes saudosos, dois gatos e a tradução inacabada de uma obra redigida originalmente em latim. Dia 8, aos 46 anos, de morte natural.

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