Novo boletim sobre a epidemia da tristeza.

Posted by on Sep 17, 2012 in Blog, eu que fiz, texto | 4 Comments

Pessoas genuinamente tristes perdem a capacidade de chorar. Isso acontece porque, em algum momento de suas vidas, essas pessoas deixam a esperança escapar, se rendem aos golpes da vida e resolvem não sofrer mais. É aí que a tristeza vence o sistema imunológico e se infiltra no organismo, de preferência no coração e no cérebro. Dentro da cabeça, a tristeza diminui a saturação de tudo o que os olhos vêem e cessa a produção de lágrimas. Seu poder é tão grande que até os pensamentos mais ingênuos ou lembranças de algodão são contaminados.

Não há registro de tratamento para tristeza, mas alguns cientistas desenvolveram métodos alternativos para erradicar esse mal. Dizem que uma pessoa genuinamente triste pode voltar às alegrias da vida depois de passar por uma experiência de quase morte. O problema é que quando a tristeza está num estágio muito avançado, o paciente submetido ao tratamento não resiste e acaba se esfarelando na própria maca.

A grande maioria dos genuinamente tristes só tenta conviver com isso diariamente, evitando engarrafamentos, peixes beta, aeroportos nacionais e filmes do Lars von Trier. Não se engane ao ver um deles sorrindo: analisados sob as lentes do microscópio, esses sorrisos são simulações forjadas pelo cérebro contaminado. Esse é um aspecto interessante da doença: ela tenta mascarar os sintomas para continuar tomando conta de sua vítima e contaminar mais humanos.

Sabe-se que a tristeza genuína é contagiosa: o número de infectados cresce em progressão geométrica. Ainda não se concluiu como ela passa de um organismo para outro. Há suspeitas de que o contágio acontece quando alguém de coração aberto abraça um genuinamente triste, porque já foram vistas conexões entre corações e a doença seria capaz de se locomover por ali. Alguns grupos têm predisposição para contrair a doença: órfãos, blumenauenses, filhos únicos, funcionários públicos, redatores e depiladoras.

A melhor maneira de prevenir a tristeza genuína é praticar alguns exercícios mentais básicos, indicados para qualquer gênero ou idade: lembrar de maus momentos, extrair o aprendizado e descartar o resto; ver sua vida com os olhos de uma terceira pessoa e analisar se você está indo pelo caminho certo; ser otimista sempre que possível. Os médicos insistem nessas medidas preventivas e o Ministério da Saúde adverte: reclamar das mesmas coisas é a porta de entrada para a tristeza genuína.

4 Comments

  1. Tayara
    18/09/2012

    Eu esqueci de evitar Lars von Trier, mas depois assisti Terrence Malick e voltei a pensar em nossa pequenitude (mesmo não sendo cristã). Blumenau deve respingar em Joinville e filhos únicos criados para não serem mimados devem ter uma janela de contaminação um tanto quanto ampla.

    Texto coisa miúda. Obrigada Gica.

  2. Albérico
    19/09/2012

    A uns 3 anos sofro disso e não sabia! rssss Texto bonito demais!!!

  3. Gica Trierweiler Yabu
    20/09/2012

    vai se tratar!

  4. Buzzy
    27/09/2012

    Bom demais seus textos Gica. Sempre acompanho, nunca comento. :P
    Ouvinte silencioso. Mas me pego de vez em quando assim na tristeza, mesmo que os problemas já tenham passado há muito tempo. Parece mais uma forma ou vício de pensar do que o resultado de alguma situação. Ver a vida sob a perspectiva de uma terceira pessoa geralmente ajuda mesmo nessas horas… :)

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