Nua.

Posted by on Jan 22, 2017 in Blog, texto, vida | 2 Comments

Violência, amiga íntima de amigos íntimos, acabou chegando, dizendo que era inevitável. Abriu a geladeira e foi logo nos servindo. Confortável essa vida com ela. Violência me protege do resto do mundo e não deixa que ninguém chegue perto: ela sussurra em meu ouvido que bastamos as duas, só eu e ela. Estranha essa relação, porque quando ela não estava olhando, a via destruir todos os meus laços. Ao ser questionada, negava explosivamente e partia para o “como você tem coragem de fazer isso comigo, que estou aqui com você durante todo esse tempo? Ninguém vai te amar como eu“, ela dizia me olhando de baixo pra cima. Uma coisa que pouca gente sabe é que, no fundo, no fundo, violência tem é medo e uma sorte de problemas psicológicos.

Cansada desse relacionamento abusivo, fui pedir ajuda à liga da saúde mental. Psiquiatria vem trocando a química. Psicanálise entra com acupuntura sobre questões malditas. E no dia seguinte ao início do tratamento tive que lidar com a vingança de quem havia se instalado aqui e agora deveria ir a contra-gosto. Me comeu metade de um dia útil e quase causou acidentes, tamanho era o torpor, a sensação de ter bebido a soma de três adolescentes comemorando sua primeira transa. Era estranho porque me sentia também vazia ao ver ir embora o que antes me completava.

Tive medo de me esvaziar de sentido, mas logo senti uma força-tarefa percorrendo meus canais, pequenos anões tentando levantar um Guliver confuso. No horizonte se via o otimismo e parecia que estava reencontrando um amigo da escola primária. “Você não mudou nada“, eu disse. “Você mudou muito“, ele me respondeu, “mas dá pra ver que continua a mesma“. Otimismo chegou abrindo as cortinas, botando para fora o que violência fazia questão de isolar dentro. Quase não me reconheci quando passei duas horas tentando fazer uma casa de botão na máquina de costura sem desistir ou amaldiçoar todos os seres vivos do planeta. Me senti nua, sim, porque é estranho mudar de sistema operacional. Eu deveria estar chorando. Eu deveria estar gritando. Eu deveria estar respondendo com sarcasmo e indiferença, mas estou aqui, olhando para o copo quebrado no chão, dizendo “ei, seu danadinho“.

Faz três dias que sorrisos têm se manifestado com insistência, do mesmo jeito que o sono vai se colocando em seu lugar. Nua ainda, mas contemplando essa paisagem que é a mesma, só que diferente. Na última sessão de psicanálise trouxe esse incômodo de não saber se sou eu ou a doença. A resposta veio sem ponto final: “mesmo na sua doença, tem você” e voltei pra casa a cinquenta por hora, num dia de muito calor.

2 Comments

  1. JOAO VICTOR
    01/02/2017

    Caralho. Que texto bem escrito. Tá lindo e verdadeiro.

  2. Gica Trierweiler Yabu
    06/02/2017

    é porque é todo verdade.

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