O começo do pior ano da minha vida – uma história verídica.

Posted by on Nov 20, 2012 in Blog, eu que fiz, novela, vida | 2 Comments

Houve um dia em que eu sabia que alguma coisa estava fora do lugar. Conferi os bibelôs do apartamento, meus cd’s e os copos na cozinha: tudo em ordem. Chequei meus livros, minhas roupas, liguei para toda a família e só ouvia “tudo em ordem”. Estranho. Minha vida que nunca estava em ordem dessa vez estava, mas… uma farpa se fazia sentir. Alguma coisa estava fora do lugar na grande ordem das coisas que importam.

O namorado legal apareceu lá em casa com uma cor diferente. Estava vestido com as mesmas roupas, tinha o mesmo cabelo, os olhos e a boca. Tudo estava lá, mas ao mesmo tempo não estava. A vibração dos assuntos era tão baixinha que mal dava para sentir. Fiquei esperando a má notícia, o motivo daquele vazio. Esperando qualquer que fosse a coisa ruim para que eu pudesse abraçar o namorado legal e dizer que isso também iria passar. Acontece que essa notícia não vinha. E quando eu perguntava, ele dizia que estava tudo em ordem.

Conforme os dias iam passando, eu ia descartando itens da lista “coisas que podem estar fora do lugar” e isso me deixava ainda mais confusa. Até que ele me falou. Depois de um dia de trabalho árduo, depois de uma vitória no novo emprego, depois de muita estrada e sol na cabeça, depois que eu cheguei falando que havia feito minha primeira grande venda. Depois de um beijo meio torto e sem emoção, ele disse que precisava de tempo e espaço para ser. O resto eu não ouvi porque estava chorando e acendendo cigarros consecutivos e olhando para o nada. Não me lembro de quanto tempo fiquei assim, só lembro da sensação quase física de ser rasgada. Estava doendo bastante e o fato de eu estar sentada no sofá do apartamento dele não facilitava as coisas.

Saí de lá e deixei o carro me levar para um dos meus portos-seguros: a casa onde minha banda ensaiava. O guitarrista tomou um susto ao ver minha cara derretida e, principalmente, ao perceber um grito surdo de dor que soltei sem querer. Suas tentativas de me fazer pensar em outra coisa como escalas pentatônicas não funcionaram. Abri um buraco no chão e comecei a cavar involuntariamente.

No dia seguinte fumei uns 42 cigarros sem mover muitos músculos porque passei 30 horas na cama. Ficava só olhando para o telefone, tentando mudar a realidade e os pensamentos do ex-namorado legal. Queria ter força o suficiente para fazer com que ele mudasse de idéia e ligasse e pedisse desculpas e dá pra gente esquecer tudo isso e começar de novo. Conforme as pessoas foram sabendo, as reações automáticas saíam e isso machucava ainda mais: “quê? vocês tem tuuuudo a ver, relaxa, vocês vão voltar”. Eu conhecia o ex-namorado legal bem o suficiente para saber que a gente não ia. E por isso doía tanto.

Saí do apartamento e me mudei para uma quitinete diminuta que, por ironia do destino, ficava perto da casa dele. Passei a não trabalhar mais porque, na verdade, eu não conseguia parar de chorar e se não estava chorando, estava com muita dor de cabeça para conseguir pensar em qualquer outra coisa. Passei a fumar como se não houvesse amanhã simplesmente porque não havia.

No auge do desespero, tentei mudar o cenário. Fui bancar a ex-namorada legal. A que quer ser sua amiga para ter mais tempo de exposição com você e ter mais oportunidades de mostrar que você e ela eram bem ótimos e mereciam mais, mas que aparenta estar superbem com a separação. Aquela que lida perfeitamente bem com o ocorrido e só quer continuar a trocar umas palavras porque, afinal, é isso que os amigos fazem. Aquela que, de tão bem que está, faz sexo com muitas pessoas simultaneamente e publica no blog e conta para o ex-namorado legal porque, oras, agora são apenas amigos e amigos falam sobre isso.

Depois que isso aconteceu e depois que o ex-namorado legal conversou comigo sobre o ocorrido com suas veias saltadas, chuveiros de saliva e sílabas exaltadas, minha dignidade sumiu e o buraco que eu estava cavando agora era tão fundo que já se aproximava do centro da Terra. Eu acordava e dormia submersa em arrependimento, solidão e tristeza. Voltei a morar na casa da minha mãe, onde a despensa sempre cheia colaborou com 20 quilos adquiridos em 3 meses. Assim começou 2004, o pior de todos os anos da minha existência. E esse foi só o começo.

 

2 Comments

  1. Erick Souza
    27/02/2013

    Nossa, é um lindo texto, mas uma triste história.

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