O noivo cadáver – uma história verídica.

Posted by on Aug 21, 2012 in Blog, eu que fiz, novela, vida | 4 Comments

Depois que terminei esse namoro com noivado anexo, quis sumir do país (falou a atriz de novela, né?). Estava de mudança para a Itália, caso conseguisse antecipar todas as avaliações do semestre vigente da faculdade. Consegui finalizar todas as disciplinas, com exceção de FOTOGRAFIA 1. Por quê? Porque o professor não quis adiantar a avaliação para mim. E ainda arrematou uns desaforos que, somados à minha intransigência juvenil, fizeram a fogueira triplicar de tamanho. Saí da sala de aula mandando o professor para você-sabe-onde, batendo porta e tudo. Talvez eu tenha até chorado de raiva, não lembro bem.

Com o raciocínio afetado, saí correndo na universidade à procura de um amigo. Eu sabia que ele também detestava esse professor e seria ótimo contar meu pepino pra ele, que me ajudaria a xingar o docente até o infinito. Meu amigo estava alguns semestres na minha frente e sua sala de aula mudava quase sempre. Demorou um tanto e encontrei o dito em alguma aula besta. “FALA COMIGO POR FAVOR“. Como todo bom amigo, pegou suas coisas e me convenceu a ir para o bar.

Devo ter largado umas 986 palavras sem respirar. Ele fez exatamente aquilo que eu esperava, só que com cerveja no meio. E a raiva foi se transformando em risada. E de repente eu nem sabia mais por que estava ali, mas sabia que estava divertidíssimo. Esse meu amigo tem um humor sagaz e é mestre em inflar situações pesadas com um monte de gás hélio. Esse meu amigo fez com que eu me sentisse tão bem que, de repente, estava ali na minha boca. Ah, esse meu amigo era amigo do meu ex-noivo. Do ex-noivo e do irmão do ex-noivo, considerando que ex-noivo e seu irmão se odiavam loucamente. Logo, até me beijar, esse meu amigo era tipo uma Suíça.

Pensei em ficar preocupada com isso, mas esses pensamentos todos foram diluídos em etilícias. Além do mais, eu tinha acabado de terminar um relacionamento e nem queria saber de mais ninguém (pelo menos por um tempo). Deixei aquela historinha rolar porque sabia que ela não ocuparia lugar nenhum na minha vida. O amigo querido me acompanhou até em casa em uma caminhada movida à risadas que passou num instante.

No dia seguinte, estava nervosa porque sabia que encontraria o amigo na faculdade. E a menina com quem ele estava ficando. Rolou um ruído na imagem e ele quis falar comigo. Me adiantei e larguei o discurso Sex and The City: Amigo, você é querido demais e eu gosto muito de você. Acontece que tá tudo certo na sua vida, e você tá ficando com a menina ali e eu tô vendo que vocês estão indo bem. Eu, pelo contrário, acabei de terminar um noivado bizarro e não pretendo ficar com ninguém. Ontem aconteceu aquele episódio divertido, mas foi só isso, né? Ou seja: não vai enrolar sua vida por causa dos meus rolos. Ele foi terminar com ela. Disse que não sabia onde ia dar essa coisa comigo, mas que queria estar lá. Que não ia me pressionar, nem nada, mas queria estar lá.

Caramba, que alívio, mas que estranho, mas que bom, mas que loucura. A gente foi criando essa coisa legal, leve e gostosa, que só existia nos esconderijos da faculdade e afins. Não queria que os outros pensassem – principalmente meu ex-noivo – que o amigo tivesse sido o pivô do fim do noivado. Mas acontece que esconder a espontaneidade desse gostar bonito e novinho é meio complicado, ainda mais quando se mora em uma cidade com menos de 300 mil habitantes.

Estávamos a caminho de uma exibição de Amelie Poulain – meu filme favorito – andando de mãos dadas, tarde da noite. O que eu não vi foi que o carro da minha ex-sogra passou ao nosso lado levando toda a família do ex-noivo, inclusive o próprio. No dia seguinte, coisas estranhas começaram a acontecer na minha dinâmica familiar. Atribuí essas estranhezas ao excesso de trabalho nos ombros dos meus pais e segui. Foi quando, dias depois, minha mãe me chamou e disse: “seu pai e eu fomos conversar com seu ex-noivo e sua ex-sogra porque eles falaram que tinham coisas muito importantes a dizer e que você estava correndo perigo.

Eles disseram que eu estava perdida: que fumava maconha quase todos os dias. Que mantinha relações bissexuais. Que estava indo muito mal na faculdade. Que estava me relacionando com um vagabundo que não trabalhava e que, ainda por cima, era traficante de drogas. Que apenas eles – o ex-noivo e a ex-sogra – poderiam me salvar.

Mal consigo imaginar o que se passou pela cabeça dos meus pais. Não sabendo o que fazer, foram os dois ao psicólogo familiar. Ele, por sua vez, clareou os pensamentos dos meus pais e pediu para que procurassem algum professor meu da faculdade. Afinal, se eu estivesse com todos esses problemas, como seria bolsista do curso? Estranho. Tudo isso acontecendo e eu sem saber de nada, pensando que estivesse imaginando coisas. Eles foram até a faculdade e falaram com meus professores. Viram minhas notas. Fui elogiada dos pés à cabeça. Então papai e mamãe perceberam que haviam sido enganados. Foi só aí, mais calma e tranquila, que minha mãe veio falar comigo.

Fiquei meio atordoada com a história, mas confesso que fui de incrédula à furiosa em 3 segundos: “O QUÊÊÊ??!?!?!?!?!“. Sentindo o sangue borbulhar, esclareci cada ponto: fumei maconha UMA vez só para ver qual era e odiei; fiquei com algumas meninas antes de namorar ele; entrei em quarto lugar na faculdade e minhas notas eram as melhores; o vagabundo não trabalhava porque fazia duas faculdades simultâneas e vivia de rendas.

Ah, o ex-noivo também estava indo atrás de mim na Itália. Percebi que se tratava de um caso sério. Converti todo meu ódio em desprezo e simplesmente apaguei a pessoa da minha memória. As novas alegrias faziam o favor de levar a raiva embora, em ondas de momentos legais. Com o tempo, os planos de ir para a Itália ficaram para trás. Eu tinha um cara legal na minha frente e tudo estava bem. O ex-noivo havia sumido, de fato. Meu melhor amigo não falava nada sobre ele, e eu também preferia nem ficar sabendo. Vez ou outra eu sentia uma ponta de raiva querendo vir à tona, mas abafava toda e qualquer tentativa.

Não sei se foi por causa desse drama todo, mas a questão é que minha mãe acabou ficando extremamente desgastada com a história. A partir daí, começamos a discutir sem parar. Não havia conversa, só gritos. Gritos, espetos, chantagens emocionais e paciência zero. A convivência se tornou insuportável. Fiz algumas contas e concluí que poderia bancar minha vida caso dividisse o aluguel com alguéns. Encontrei umas garotas que moravam perto da universidade e selei o acordo. Comuniquei minha mãe num dia, fui embora de casa no outro.

Eu, uma mala de roupas, um violão, uma televisão, alguns livros e meus 18 anos de vida.

Continua no próximo post.

4 Comments

  1. Isabella
    27/08/2012

    Acabei de conhecer seu blog e, nossa… você escreve muito bem!
    Tou adorando e ansiosa esperando os próximos posts. :)

  2. Gica Trierweiler Yabu
    27/08/2012

    thanks!

  3. Marina
    29/08/2012

    Já tem continuação desse post amor? Bjjjks!

  4. Gica Trierweiler Yabu
    09/09/2012

    a chave e o bolo de banana. tá lá.

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