O triste caso da mulher que virou uma tesoura.

Posted by on Dec 28, 2012 in Blog, eu que fiz, texto | One Comment

Era uma mulher que também era esposa, mãe, filha, profissional, contribuinte, cliente, motorista, bacharel,  inquilina, leitora, blogueira, compositora e aspirante à cozinheira amadora. Um dia acordou sentindo um gosto metálico muito forte na boca. Saiu da cama com certa dificuldade que não condizia com seus anos de vida e procurou o espelho. Não entendeu muito bem o que viu e demorou um pouco para compreender sua imagem refletida. Viu uma tesoura de um metro e setenta acima do peso.

Fez um barulho alto quando caiu no chão tamanho era seu desespero. O estrondo acordou o marido e a filha que se apavoraram ao ver uma tesoura abrindo e fechando suas lâminas voluntariamente. Saíram correndo, o marido gritando e a filha chorando. Procuravam a mãe porque queriam voltar à formação original da família e procurar um lugar seguro, mas isso não fazia muito sentido já que a mãe não era mais aquela mãe, e quanto mais eles demorassem para entender isso, pior seria para a mãe-tesoura. Retalhou o tapete e algumas roupas que estavam espalhadas pelo chão. Quanto mais se movia, mais coisas danificava, mesmo sem querer. Tentou se levantar, mas não conseguiu porque suas pernas não eram mais articuladas e seus braços haviam se voltado para cima da cabeça, onde se enrijeceram e se transformaram em alças. Como você pode imaginar, tesouras não foram feitas para isso. Ela sentiu que chorou.

Logo, o marido voltou ao quarto. A mulher quis explicar o que estava havendo e, ao se exaltar emocionalmente, repetiu a movimentação ameaçadora, cortando mais pedaços do tapete, agora tirando pedaços dos pés da cama. Com medo de morrer, ele bateu a porta ficando lado de fora. Ela queria falar, gritar, perguntar, xingar, mas sua voz não saía: apenas lâminas se agitavam. Ele ouviu o silêncio vindo do quarto e abriu a porta outra vez, bem devagar. Ela se acalmou para não assustá-lo e moveu lentamente uma lâmina tentando coreografar um aceno. Se ele parasse para pensar no que estava fazendo, teria se julgado idiota, fora de si, completamente louco e até mesmo infantil. Mas havia uma tesoura do tamanho da sua mulher no chão daquele quarto onde a razão e as leis do universo não encontravam espaço para agir. “Amor?” Ele perguntou e ela deu uma leve tesourada no ar, seguindo o princípio de pacientes com paralisias escabrosas que piscam uma vez para SIM e duas vezes para NÃO. Então, “amor?”, SIM.

“Amor, é você?”, SIM. Então foi ele que chorou com seus olhos, lágrimas, urros e dor. Ela era uma tesoura há poucas horas então havia se esquecido dessa condição. Viu o homem que mais amava chorando e sofrendo, então aproximou-se instantaneamente para abraçá-lo. Ele gritou outra vez ao sentir uma lâmina contra seu braço direito. Com o susto, a tesoura se agitou provocando ainda mais danos no marido, que conseguiu sair da situação sangrando muito, desejando acordar do pior pesadelo que poderia ter tido na vida. Contou quantos dedos tinha na mão e se deprimiu ao constatar que eram um-dois-três-quatro-cinco. Um, dois, três, quatro, cinco. Cinco significava que não era um sonho. Quatro, três, dois, um, sete, seis, doze ou nove significariam pesadelo. SIM, cinco. Verdade. Acordado. Maldição.

Incomodado com o barulho e os gritos, o vizinho invadiu a casa. Deparou-se com uma criança chorando e com o marido ensanguentado, em estado de choque. Teve certeza de que se tratava de uma invasão de um psicopata, quando pegou uma faca e uma panela de pressão antes de invadir o quarto. Tanto a faca quanto a panela caíram quando a porta do quarto se abriu e revelou uma tesoura gigantesca se mexendo magicamente com sangue coagulado em suas lâminas enormes. O vizinho saiu em debandada xingando e fazendo o sinal da cruz repetidamente.

A mãe da mãe chegou para a costumeira visita de fim de semana. Foi recebida pelo marido – agora dotado de um pingo de lucidez – que explicou o que parecia ter acontecido. A mãe da mãe abriu a porta do quarto e a viu com seus próprios olhos. Ficou perplexa e começou a revirar seus arquivos mentais em busca de acontecimentos que indicassem a natureza daquilo. Não encontrou nada, mas teve certeza de que a culpa era sua.

Marido e mãe da mãe começaram a pensar sobre como seriam suas vidas dali por diante. A filha estava alheia à situação e pedia o colo da mãe, que ouvia tudo do quarto e se sentia o pior dos seres da galáxia. A mãe da mãe fez o que sempre fazia em situações de emergência familiar: café coado. Com o cheiro da torra exagerada no ar, a polícia entrou na casa como se ela não pertencesse a ninguém. Atrás dos gorilas uniformizados veio o vizinho, mostrando o caminho. Marido, filha e mãe da mãe foram isolados do lado de fora. Lá dentro os policiais enfrentavam o medo e a fúria de uma  mulher que também era esposa, mãe, filha, profissional, contribuinte, cliente, motorista, bacharel,  inquilina, leitora, blogueira, compositora, aspirante à cozinheira amadora e agora, tesoura.

Saída de sabe-se lá onde, uma marreta desconfigurava a tesoura, desencaixando e amassando suas lâminas e alças. Enquanto isso, a mulher passava seus últimos momentos de consciência pensando que queria ter tido o direito de passar pelo pior dia da sua vida sozinha, ao invés de ser mutilada por policiais amedrontados. Também pensou que não era justo ser transformada em tesoura, ela que era tão produtiva, tão falante, tão mãe, tão esposa, tão pessoa inserida na sociedade. Por último, lamentou não educar sua filha, quebrando o ciclo natural da vida e das coisas. Ao soar da última marretada, ouviu-se também um grito surdo de uma mulher triste, mas isso não foi computado nos registros porque era inacreditável. Um furgão da imprensa logo chegou e filmou os destroços da grande tesoura sendo colocados na caçamba de um caminhão que não sabia se ia para o ferro velho ou para o Instituto Médico Legal. A família estava se alternando entre médicos, psicólogos e investigadores. O portão estava cheio de curiosos pendurados.

Entre a mulher se ver tesoura no espelho e os portais publicarem imagens absurdas de grandes pedaços de metal amassado, haviam se passado apenas 6 horas. Conforme a notícia se espalhava, detalhes fantásticos eram acrescentados. Não demorou até o acontecimento ganhar várias versões que incluíam de satanismo a sequestro. Anos depois surgiu um documentário financiado por um aspirante a cinegrafista. Muito se questionava sobre a natureza do acontecimento, como também se falava sobre as consequências do episódio na vida da família, mas nunca, e em lugar nenhum, ficou registrada a tristeza daquela mulher.

1 Comment

  1. Mariana Thomé
    29/12/2012

    Uau.

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