Porquessim.

Posted by on Dec 18, 2016 in Blog, texto, vida | No Comments

Tem vezes em que eu não sei se são eles ou se é a minha doença. Porque a linha é, além de tênue, sinuosa. E se enrosca em vísceras, tropeça em buracos do calçamento, cruza tiroteios e se estabelece onde fica difícil mesmo dizer quando termina uma coisa e começa outra. Essa é uma linha que você escolhe entre a ignorância e o diagnóstico, que é algo como escolher uma religião: todas explicam dois terços do problema. Tem sempre um pedaço que você tapa o nariz e engole, no maior porquessim. Ninguém não sabe ainda. Questionou, perdeu. Toma aqui esse silêncio e um olhar de “eu-não-acredito-que-você-vai-fazer-a-gente-passar-por-isso-outra-vez”. Desculpa, me dá um pouquinho de deficiência química, com problemas originados na infância, hereditariedade e palmito. Só pode três? Então tira o palmito e passa no débito.

Tem vezes em que fica difícil usar esse tema como ingrediente porque ele insiste em virar prato principal e acabo me sentindo um praticante de cross fit ou dessas pessoas que acabou de se converter ao veganismo. Monotemática, eu. Justo eu. Tanto conhecimento sobre tanta coisa pra acabar falando sempre sobre dificuldades em geral. Mas, veja. É difícil, mesmo. E tem sido cada vez mais fácil botar a culpa neles. Porque nada funciona como eu acho que deveria funcionar, já se vão quase dois anos e a lista de remédios só aumenta. Mas, veja. Coloca aí na sua placa de petri um mentos e uma coca-cola pra ver só o que acontece. Ainda que o mentos achasse a coca certa no jeito dela e que a coca estivesse de acordo com a permanência do mentos, a explosão seria inevitável. A culpa não é do mentos, nem da coca: é de quem juntou os dois. Mas, veja. Depois que a coisa toda explodiu, o que a gente faz com essa culpa desvendada? Joga pra cima e vem aqui me ajudar a enxergar a linha, porque eu já não sei mais.

Tem vezes em que alterno entre óculos e lentes de contato, mas na última eu cansei e tirei uma soneca não-planejada no sofá da minha mãe. Soneca que era minha por direito porque onde já se viu um ano fazer isso que tá fazendo com a gente e estava frio e eu também não devo explicações pra ninguém. O que importa é que acordei com uma das lentes, apenas. A outra eu não sei se entrou ou se caiu, só sei que foi pra sempre. Aí danou-se, agora é que não enxergo mais nada mesmo. Sou eu ou são eles? Sou eu ou é um pacote de sintomas enfileirados daqueles que vão dar num diagnóstico tão óbvio quanto neon na luz negra no documentário sobre a minha vida lançado depois que eu morrer? Nessas horas me agarro às palavras da psicóloga que poderia ter sido sósia da Diane Keaton na juventude: “Não importa a resposta. O que importa é a pergunta.”

Tem vezes em que eu não sei como ainda não fiquei maluca.

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