Representatividade na propaganda: modo de preparo.

Posted by on Jul 1, 2016 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

“Valeu, tia, mas eu não quero aparecer na propaganda, não.”

E ela não foi a única. Quando fui montar o filme de um cliente-faculdade aqui de Fortaleza, fiz questão de ir ao campus pra selecionar os alunos a dedo. Até aí, nenhuma novidade. A diferença é que eu estava em busca de diversidade.

Nossos dedos de criação publicitária conhecem o caminho: loirxs, altxs, clarxs, sensuais. Padrão núcleo rico de novela das 21h. Homens nos laboratórios de engenharia, mulheres nas aulas de costura. Brancos apertando mãos, pardos servido o café. Diz pra mim: quantas vezes você tomou bronca porque escolheu alguém bonito demais pro seu layout? E agora complementa me contando quantas vezes a arte foi reprovada porque essa pessoa não tá boa?

A gente não é trouxa. Todo mundo quer impressionar, acertar de primeira. Ninguém quer enfeiar o layout e, na boa, o padrão já estava aí quando a gente chegou, certo? CERTO. Sabe o que tá errado nessa história, amigo? A insistência na isenção. Puxa um banquinho e senta aqui comigo.

Quem se formou em Publicidade, na maioria dos casos é formado em COMUNICAÇÃO SOCIAL com habilitação em Publicidade & Propaganda. A gente controla / cria conteúdo para meios de comunicação de massa e nicho. A gente usa todo o nosso conhecimento de argumentação, convencimento, design e paranauês afins para vender produtos e serviços. Médicos salvam vidas, engenheiros constroem pontes, doulas ajudam mulheres a parir e a gente, amigo publicitário, tem o poder de MANTER / CONSTRUIR / CONSOLIDAR / RESSIGNIFICAR / TRANSFORMAR IMAGENS E PADRÕES. É só por isso que a gente consegue vender produtos e serviços. A essa altura já deu pra entender que trabalhar nessa indústria e não ter consciência disso é um perigo, né?

Aqui eu volto lá pro campus do meu cliente. A menina era negra. Morrendo de vergonha. Apontou pra outra colega.

_Chama ela.

Uma bala juquinha pra quem adivinhar a cor da colega apontada.

_Eu não quero ela. Eu quero você.
_Por quê?
_Porque você é negra. E porque eu sei que você cresceu só assistindo na tv gente branca entrando na faculdade, abrindo conta em banco, comprando carro. Eu quero você aqui porque esse lugar também é seu e porque sei que tem outras meninas negras que talvez achem que faculdade não é pra elas porque… né?

Ela ficou em silêncio. Eu também. E, sorrindo, mandou um “BORA”. O que aconteceu nesse momento de silêncio e reflexão ali foi bem mágico. Era tanta coisa fervendo na cabeça dela que quase dava pra ver uma projeção na parede. Era a chavinha do protagonismo, da validação, do reconhecimento, do saber-que-eu-posso e mais um monte de coisa que eu não sei e talvez nunca vá saber porque nasci menina branca.

Teve ela. Teve colega negro. Teve mulher no laboratório de engenharia. Teve índia. Teve gordxs e magrxs. Gays e heteros. Branco, azul, amarelo. Teve representatividade. E representatividade pautada na quebra de padrões, e não no cumprimento de tabela. Pode parecer tudo a mesma coisa, mas enquanto o primeiro mostra verdade, o segundo adora uma manipulação (como diria meu amigo Cristiano Vieira, propaganda com nego-de-óculos-de-aro-grosso-que-nem-existe-no-brasil-mas-deixa-o-layout-estiloso).

Então deixo aqui dois pedidos, colega de profissão. O primeiro é assistir a esse vídeo aí embaixo – uma sessão de empatia de 9 minutinhos, vai. O segundo é assumir a grandiosidade do seu poder e construir, pixel a pixel, jpg a jpg, final a final_2_alterado imagens e padrões que empoderem ao invés de oprimir e segregar.

Bora fazer isso juntos?

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