Ricardo.

Posted by on Nov 14, 2010 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

_Alô?
_Jéssica?
_Quem é?
_É a Jéssica?
_Quem é?
_É a Jéssica, né? Jéssica, eu precisava tanto falar pra você uma coisa. São duas e quarenta da manhã e eu estou segurando o telefone desde às sete da noite para te ligar. Passei esse tempo todo discando e desligando, com medo do que você fosse dizer quando eu te falasse tudo aquilo que eu, bom, que eu vou falar agora, não deu mais pra aguentar então eu bem vou falar agora porque parece que meu coração não vai aguentar muito tempo – tá batendo forte desde às sete, imagina, sem falar na garrafa térmica cheia que matei – então eu pensei: sou homem, porra, sou homem ou não sou?, porra, eu sou, Jéssica, mas mesmo pra quem é homem, chega nessas horas e dá um nó na garganta, sabe? Você não deve saber porque é mulher e mulher sabe como faz essas coisas porque eu acho que mulher meio que nasce com isso e a gente passa a vida inteira sendo treinado pra ser durão e/
_Escuta.
_Jéssica, por favor, você não vai querer me interromper agora, não agora que eu tomei coragem de te ligar depois de ficar feito um palhaço discando e desligando o telefone. Só me escuta dessa vez e depois, se você quiser, não precisa me olhar na cara nunca mais, mas deixa eu falar, por favor, eu preciso tanto. Jéssica, eu tô rindo de nervoso, ai Jéssica, como é que eu vou dizer isso? Caramba, Jéssica, olha o que você faz comigo? Eu não aguento mais isso, Jéssica, porque você passa por mim e sorri, me dá bom dia, pergunta como está o meu trabalho e tudo mais, quer saber o que eu vou fazer no feriado e tudo isso por que, Jéssica? Porque você está interessada, né? O Cláudio do financeiro disse que é coisa da minha cabeça, que você só está sendo simpática, que você é assim com todo mundo, mas eu sei que não é Jéssica, eu vejo no jeito que você olha pra mim, por mais que não faça muito sentido. Então, Jéssica, eu queria que você soubesse que eu também sinto uma coisa: todas as vezes que você fala comigo e eu respondo com uma risada idiota eu queria estar te perguntando as mesmas coisas, eu queria saber como você está e, ai, que loucura, queria saber se você não gostaria de sair comigo nesse feriado. Aí eu acabo assim, né, Jéssica? Procurando seu telefone em assinaturas de e-mail, cartões de visita, até que eu consegui seu número com a Nadir do RH – disse pra ela que precisava de uns relatórios que você estava fazendo pra adiantar meu trabalho no feriado, essa foi boa, né? – e agora, olha que papelão, eu te ligando a essa hora pra saber se você não quer sair comigo no feriado. Você quer sair comigo no feriado?
_Quem tá falando?
_O Ricardo, de Operações, eu sento ali perto do café, sabe?
_ Perto do café, né? Então, Ricardo, como é que eu vou te dizer isso?
_Tudo bem, pode falar, eu meio que já sabia que/
_Aqui é a Augusta.
_Ai, que Augusta? Liguei errado. Foi engano, não acredito. Desculpa, desculpa, liguei errado. Tomei tanto café que estou meio maluco, desculpa.
_Não, você ligou direitinho: aqui é a casa da Jéssica também. Eu sou a Augusta, mulher da Jéssica, e trabalho em Relatórios com ela, ali do lado da impressora.
_…
_A Jéssica está dormindo tão pesado que eu não quis acordá-la. Devo deixar algum recado ou você prefere fazer de conta que isso nunca aconteceu?
_…
_Melhor assim. Boa noite pra você também, Ricardo.

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