Selma.

Posted by on Dec 9, 2010 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

Demorou até Selma perceber que sua vida havia saído pra comprar pão e, por algum motivo, tinha esquecido de voltar. Todos os dias eram pequenas variações dessaturadas de uma antiga rotina. O casamento de mais de vinte anos agora era bom-dia-tarde-noite, com raras emoções que não iam além de discussões sobre o orçamento doméstico. Selma era a mulher, o homem e o ser provedor da casa, além de sustentar um cargo de confiança na empresa onde trabalhava. O marido estava tentando se descobrir entre crayons, grafites, cores e formas. Ele tinha um talento que insistia em não dar frutos. A esperança foi sendo tomada pelo cansaço e, bom, cá estamos.

Quando lhe perguntam, Selma não sabe responder direito por que resolveu se destacar daquela realidade. Calma e serena, acordou num dia e, contrariando toda a rotina estabelecida ao longo de duas décadas, trocou sua xícara de café e o pão sem miolo com manteiga por uma pergunta dirigida ao parceiro.

_Você já pensou em morar em outro lugar?

Sem tirar os olhos do calhamaço de papéis esparramados sobre a mesa, sem ao menos afrouxar a pegada no toco de carvão, o marido respondeu enquanto traçava a silhueta do gato que observava a movimentação matinal.

_Selma, a gente mora aqui faz mais de 20 anos.
_Sim, sim. O que eu quero saber é se você se vê morando em outro lugar.
_Por quê?
_Porque eu não quero mais viver com você e, já que sustento essa casa, acho justo ficar aqui. Em resumo, você precisa morar em outro lugar.
_Ah, Selma. Isso vai passar. A gente é assim.
_Você é assim e me arrastou junto.
_Selma.
_De verdade? Eu não quero discutir. Sabe? Não estou brava, nem nada. A culpa é toda minha, afinal, eu sempre fui dando um jeito. Mas hoje eu acordei sem essa vontade e percebi que preciso dar um jeito em mim. Não é nada pessoal.
_Então é isso?
_Basicamente.

O gato no papel ainda precisava de um olho quando o marido se levantou e ficou parado no mesmo lugar. Selma não se deixou comover – pelo contrário: tirou três biscoitos de maizena do pote sobre a mesa e foi trabalhar. Não penteou os cabelos, nem escovou os dentes e, por sorte, já tinha saído dos pijamas: ela estava acima de quaisquer convenções sociais.

Nos dias seguintes o marido tentou dissuadir Selma, mas todas as tentativas esbarravam numa espécie de escudo refratário. Mal reconhecia aquela mulher. Derrotado, juntou algumas roupas, papéis – sempre tantos papéis – lápis, duas fotografias, um gato e foi morar com a mãe, uma senhora cansada de acordar dia após dia, beirando os oitenta anos. Enquanto isso, Selma começava a redescobrir como era viver por si só.

Cortou os cabelos, marcou uma consulta no ginecologista. Comprou um livro com mais de 300 páginas e uma passagem de avião. Organizou todas as receitas tradicionais da família em um fichário, recebeus amigos com um delicioso jantar. Selma era feliz até deitar-se na cama, quando tentava simular a respiração pesada do ex-marido para preencher o espaço que sobrava. Ao mesmo tempo lamentava o fim daquela história que tanto prometia. Permitia-se chorar desde que, a cada lágrima, desse um passo rumo à libertação. O tempo passou, a vida foi passando. Selma já se sentia confortável nas vinte e quatro horas de seus dias enquanto ímpar. O outro, de tão orgulhoso e humilhado, nunca mais havia se manifestado. “Melhor assim”, pensava Selma.

Tempos depois, Selma se preparava para um casamento. Nada a ver com o seu coração: quem estava prestes a dizer o “sim” era uma de suas colegas de trabalho. Passou horas no salão e dedicou a tarde daquele sábado à meditação. Depois de tanto tempo, estava se sentindo realmente bem. A duas horas da cerimônia, tirou o vestido de festa do armário. Escorregou para dentro da peça e – surpresa – percebeu que além de uma nova vida, havia ganhado alguns quilos. O zíper das costas insistia em não fechar. Pelo menos sozinha ela não conseguiria. Pensou em não ir, pensou em chorar, pensou em beber um vinho – e bebeu. Então teve uma idéia.

Como estava, entrou no carro e dirigiu-se até a casa da ex-sogra. Estacionou e buzinou três vezes até que aquele – lembra? – apareceu na janela do segundo andar com um olhar curioso. Ela não se moveu: ele foi a seu encontro. Parou ao lado do carro e, apoiando-se na janela do motorista, respirou fundo e murmurou um “oooi”. Selma ficou um tanto tocada com a imagem daquele homem que era o mesmo, só que pior. Pior, não: menos.

_Você tá bem?
_Eu tô, Selma. Eu até que tô.
_E a sua mãe?
_Na mesma.
_Sabe, eu toquei minha vida. Fui me cuidar, fui viver do jeito que achava que devia. Foi bom. Aliás, foi bem bom. Mas hoje eu descobri que ainda preciso de você.

O rosto dele se iluminou, realçando também uma expressão estranha de incredulidade picada com gelo e alívio. Ela saltou do carro e lhe deu as costas.

_Não consigo fechar meu vestido sozinha.

Calado, fechou o vestido. Ao concluir, ela agradeceu com um beijo no rosto, mandou lembranças à sua mãe e seguiu seu caminho. Depois de ver o carro sumir no fim da rua, ele tirou um bloquinho do bolso de trás, sentou na calçada e desenhou alguma coisa. Como sempre.

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