Só de ida.

Posted by on Apr 6, 2015 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

Não era fácil a vida dele naquela cidade, mas se formos entrar nesses méritos, é melhor parar a história por aqui. Veja: minha vida também não é fácil, mas eu tô tentando todo dia. Você também. E ele. Então era isso: ele era novo na cidade e se sentia um elefante amarelo andando por ruas cujos nomes não seguiam nenhum padrão perceptível. Às vezes sentia saudades da organização de onde costumava morar: bairros inteiros onde cada rua tinha nome de pássaro, índio, missionário jesuíta ou de senhores de engenhos. Lá, um lugar que era longe e caro pra se chegar outra vez, tinha gente querida e bala perdida, uma rima tão infeliz quanto essas coisas da vida. O que importava é que ele havia tomado essa decisão, então seguia de cabeça erguida e com olhos de viajante em tudo o que via: da menina no vestido fluorescente e cabelo preso com uma flor de feltro vermelho à poça de água repleta de larvas de aedes Aegypti. Se perguntou o que poderia fazer nesse caso e resolveu avisar o dono da banca de revista: “moço, tá cheio de larva de mosquito ali. Sei lá.” O dono da banca de revista perguntou se ele queria comprar alguma coisa e ele não estava preparado pra isso. “Um Lucky Strike azul e um isqueiro” por que… por que não? Dane-se o mosquito, a dengue e a tentativa de prevenir os demais moradores daquela cidade nova. Acendeu um cigarro e achou aquilo tão, mas tão errado, que teve vontade de morrer por alguns segundos. Então jogou o cigarro acesso nos futuros mosquitos nadando no chão e se sentiu o novo justiceiro das redondezas. É. Ninguém podia com ele. Ainda mais com essa versão dele perdida entre uma ponta de arrependimento e com a torneira do heroísmo aberta, deixando tudo vazar ao mesmo tempo. Sei lá. Ele estava sei lá num lugar que também sei lá e o que ele fazia lá, ninguém sabia. Ninguém mandou ele passar a régua em tudo e vir só por causa dela. Ninguém mandou vender carro, pedir demissão e entregar o apartamento e resolver morar quatromilepicas quilômetros pra lá só por causa dela. Ninguém mandou fazer tudo isso assim, de surpresa, porque é mais bonito ou romântico ou cinematográfico só por causa dela. Porque aí quando ele chegou e viu que ela tinha filho e marido e cachorro, meio que a culpa não podia ser dela. Ele sabia. Sabia que não poderia brigar com ela, mas ficou com todo esse ódio nascido da frustração por parte de mãe e desespero por parte de pai e foi andar na rua. Sei lá pra onde.

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