Sobre mangas maduras.

Posted by on Dec 21, 2011 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

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Ele fez questão de dizer que manga era sua fruta favorita desde sempre, quando aos 14 anos resolveu preferir o abacaxi, mas voltou a anterior ao descobrir que se falava “mango” em inglês e que “mango” tinha muito mais personalidade que “pineapple”, que mais parecia uma espécie de maçã.

Eu disse que o cheiro me trazia fortes lembranças de uma viagem infinita feita na infância, quando rodei 700 km sem ar condicionado com meus avós em um Monza top de linha – na época em que top era ter aquele encosto de braço para os passageiros de trás bem no meio do banco. Fomos ao oeste selvagem do Estado de São Paulo para visitar parentes distantes e um desses parentes, veja você, tinha um sítio cheíssimo de mangueiras que, para minha surpresa, eram vários pés de manga com nome dessa coisa que se usa para regar outras plantas e lavar calçada. Vovô e vovó quiseram presentar toda a família 700 km abaixo com deliciosas mangas e acabou que trouxemos um porta-malas transbordando até nossa cidade. No calor. Sem ar condicionado. Eu sei que já falei que não havia ar condicionado, mas é que fazia muito calor e o cheiro das mangas fervendo me fez passar 12 horas de nariz tapado.

Ele disse que adora colocar pedaços grandes de manga madura na salada porque isso confere um toque exótico ao prato. Eu gostei dele falando exótico e do fato de ele gostar de sabores diferentes de feijão, arroz, bife e purê de batatas. Eu falei que uma vez assisti a um filme chamado Amarelo Manga e odiei, ele riu e disse que odiou também. Fiquei feliz porque esse filme é daqueles que se você odeia é porque é idiota e não sabe apreciar arte e boa arte, arte do tipo zzzzZZZZzzzzzzzZZZZzzzzzz. E ele ria e eu gostava quando ele ria porque isso queria dizer que ele estava gostando dessa conversa besta.

Ele disse que por falar em amarelo manga, um tio dele tinha um carro dessa cor e todo mundo sabia onde ele andava porque morava em uma cidade minúscula. Por isso a tia descobriu quando o marido foi à tal casa de massagens e acompanhantes, então o casamento acabou e ela fez questão de ficar com o carro. Eu disse que tinha uma empregada que não sabia passar as mangas das minhas duas camisas sociais, e que isso me incomodava muito porque eu tenho esse negócio com partes de roupas mal passadas.

Ele disse que a mãe dele não gostava muito de manga, embora soubesse passar camisas como ninguém. Eu disse que tive uma chefe que engravidou e teve esse desejo insólito de comer mangas absurdamente verdes e azedas. Ele fez cara de nojo, mas disse que grávida não vale porque grávida perde a noção. Eu disse que uma amiga da minha mãe que teve gêmeos não sabia o que fazer para diferenciar os filhos, então vestia um de mangas curtas e o outro de mangas compridas – aí eu disse que mãe também perde a noção. Ele disse que a mãe dele não tinha muita noção e eu disse que a minha também não.

Aí o assunto acabou e eu fui comprar café, papel higiênico, creme de leite, água de coco e inseticida. E pão. Paguei no débito e nunca mais falei sobre manga com ninguém.

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