Sobre sebos

Posted by on Mar 13, 2015 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

Deve fazer mais de dez anos que eu não faço isso, mas eu tinha esse costume. Aliás, era uma das coisas que usava para me definir nessas tentativas de atrair a atenção dos outros em duas linhas autobiográficas. Essas coisas que a gente tem, principalmente quando a esperança não está muito bem calibrada, você sabe. Eu frequentava sebos. Muitos. Todos. Em qualquer lugar que fosse. Quase que diariamente. E é claro que como todo viciado, eu tinha meus fornecedores prediletos.

Aqueles onde me sentia suficientemente à vontade para puxar um banquinho, sentar e passar horas descobrindo não só capas e títulos, mas também cheiros, intenções e sentenças sublinhadas debaixo daquela luz mequetrefe, instalada na melhor expressão material do “é o que temos para o momento”. Prova de que eu era da casa está justamente no fato de eu saber onde estavam os banquinhos que ficavam escondidos debaixo das estantes e só os funcionários ou gente muito íntima os acessavam para alcançar os livros lá do alto ou, como era o meu caso, para contemplar.

Eu também aproveitava para olhar ao redor, procurando por outros iguais a mim. Você não sabe o quanto eu desejava levar pra casa um bom livro de segunda mão, de mãos dadas com alguém do bem, também já lido, lombada um pouco desgastada, mas cheio de pequenos mistérios e outras coisas que, quando somadas, dão um caldo.

Nunca apareceu ninguém assim. Só os livros, esses sim. Inclusive o livro da minha vida – foi lá que o conheci. Capa feia, autor desconhecido, cinco reais e um título que pediu licença pra minha respiração: Para te comer melhor. Pensando se tratar de uma publicação porno-erótica, me curvei inteira sobre o livro no banquinho e o submeti à minha prova, descrita a seguir.

MÉTODO GICA DE TESTE LITERÁRIO:

1) Abra o livro mais ou menos na metade.
2) Leia um parágrafo curto.
3) Se for bom, o livro é bom. Se não for, desista.

Esse método funciona porque autores medíocres podem até enganar numa orelha, num prólogo ou no primeiro capítulo, mas nenhum – eu disse NENHUM – passa no teste quando é pego de sopetão, numa página aleatória.

Não me lembro qual foi o parágrafo do Eduardo Gudiño Kieffer que li na ocasião, mas certamente me seduziu com metáforas, palavras desconstruídas e pontuações tão seguras de si mesmas que nem se levavam muito a sério. Amei tanto esse livro que não via problema nenhum em fazer uma leitura que demorava a avançar as páginas porque fazia questão de ler aquelas construções mais de uma vez. Nunca emprestei esse livro pra ninguém, aquela era uma relação monogâmica.

Até que um dia, um pacote apareceu na minha cama. Embrulhados em papel pardo, remetidos por alguém que se identificava como sendo o Papai Noel, dois livros. Num deles a dedicatória dizia “Por ter sido uma boa menina. G. N. Lapônia” Eu conhecia aquele cheiro. Eram livros de sebo. De um autor que já não era mais publicado por ninguém. Um autor que caprichava nas metáforas e debochava da vida: Tom Robbins. Então liguei o autor à Lapônia e à assinatura. Nem precisei ir longe no teorema de Pitágoras para chegar ao cara de outra cidade com quem eu estava falando em alguma rede social primitiva. Lembrei que ele havia pedido meu endereço tempos atrás e, ao mesmo tempo em que me repreendia por ter informado logradouro, número e CEP da minha residência a um completo estranho, me senti amolecer diante do feito do rapaz. Tinha que ser o começo de algo bom.

Instantaneamente me vi sendo sua, se não para sempre, pelo menos por um bom tempo. Ora: gosto compartilhado por Tom Robbins e frequência assídua a sebos são características peculiares e verdadeiras o suficiente para garantir a compatibilidade e felicidade de um casal. Ainda que as partes morassem a quatrocentos quilômetros de distância. Ainda que nenhum dos dois se conhecesse pessoalmente. Ainda que ele tivesse a idade da minha mãe. Eu já falei isso antes, mas não canso de repetir: é muito fácil encontrar o amor da sua vida quando se tem dezenove anos.

Foi no hotel que nos encontramos quando ele me visitou na minha cidade. Eu estava de vestido marrom e cabelo arrumado. Batom e perfume e brinco e calcinha nova. Ao sair do carro, ele me pediu ajuda com a bagagem: além de quatro garrafas de vinho e outras etilícias, tirou um par de meias vermelhas. “Isso é pra você“. Dei risada e agradeci – ele não parava de acertar. Acho que nos beijamos só quando chegamos ao quarto e provavelmente fomos do status “com roupa” ao “sem roupa” bem rápido. A mistura do cheiro dele com meu gosto, do cabelo dele com a minha mão, da boca dele com tudo o que eu tinha ali. Um sexo previsto, porém improvisado. Todo rico e novo e diferente. Dormi suspirando, abraçada em uma certeza.

No dia seguinte ele pediu pratos típicos da região. Visitamos pequenos museus e demais lugares que faziam parte do roteiro veja-pessoa-com-quem-troco-fluidos-essa-é-minha-cidade-e-adjacências. A conversa seguia agradável por essas paisagens até esbarrarmos com um casal de amigos dele no zoológico da cidade vizinha. Um casal de amigos e seus dois filhos. Um casal de amigos, seus dois filhos e olhares de reprovação. Um casal de amigos, seus dois filhos, olhares de reprovação e algum constrangimento compartilhado entre os adultos com mais de quarenta anos.

O constrangimento pegou carona conosco no trajeto zoológico – minha casa. Combinado ao entardecer típico de domingo que nos obriga a volta à realidade dos dias úteis, esse clima fez a conversa minguar e também facilitou a constatação de que aquilo entre ele e eu se resumiria a essas horas contidas num fim de semana à parte do calendário. Pedi que ele esperasse um pouco do lado de fora. Corri até meu quarto e peguei o livro da minha vida. Aquele que você sabe bem qual é. “Eu vou viajar por quase seis meses e queria que você cuidasse desse livro pra mim“. Foi bem nesse rescaldo de domingo que entreguei meu “Para te comer melhor” ao Gabriel. Não sei se foi gratidão ou uma última tentativa de impressioná-lo, juro. Não lembro. Só sei que foi a última vez em que o vi, meu livro querido.

Depois que voltei da minha longa viagem, também voltei ao banquinho do meu sebo favorito. Jamais encontrei outra edição do livro da minha vida, muito menos nenhum outro que pudesse me completar como ele. Todos os que vieram na sequência foram piores ou melhores, mas jamais iguais. Essa é a cláusula em letras pequenas do contrato que você assina ao frequentar estabelecimentos comerciais que vendem livros usados. Você assume o risco de se apaixonar por um autor que já foi e que nunca mais volta.

Passei anos procurando outros Eduardos Gudiño Kieffer por aí, até mesmo na capital do seu país, Argentina. Nada. De tão frustrada, parei de procurar. Cada negativa ressuscitava o arrependimento de ter deixado o livro que mais gostava com alguém de quem gostei por um fim de semana. Por alguma razão, pensei nele hoje e num site chamado Estante Virtual, que indexa o acervo de centenas de sebos do Brasil.

Cento e vinte e nove ocorrências. Pela segunda vez na vida, esse livro me fez parar de respirar. Por menos de quinze reais, ele será meu outra vez em dezessete dias úteis. Um outro ele, é verdade, mas com lombada preservada, pequena assinatura na folha de rosto e páginas amareladas pelo tempo, conforme descrição do vendedor – um sebo antigo do interior.

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