Superado.

Posted by on Nov 3, 2015 in Blog, eu que fiz, texto, vida | No Comments

photo by Aaron Burden

Eu contava os dias pra mergulhar bem no meio do seu meio e me perder no seu cheiro misturado na sua camiseta e envelhecido na jaqueta jeans de procedência duvidosa. Pra falar a verdade, tudo seu era meio assim, vindo de lugares-ocasiões-pessoas-passagens pouco ortodoxas – inclusive você. Pra falar beeem a verdade, mais obscuro que a sua chegada na minha vida, só o momento em que eu me encontrava antes de você aparecer.

Suas histórias, pronomes e sotaque carregado. Seu olhar torto, sua magreza excessiva, sue predileção por uma fruta que nem fruta era. Os acordes impossíveis de reproduzir e o medo charmosíssimo de esquecer de respirar um dia: guardei tudo isso no meu coração como se fosse mobília para uma nova e duradoura história a dois. Eu queria tanto você e todas essas excentricidades que ria sozinha olhando pra cima com uma frequência ainda não registrada. Eu precisava de você para ser meu solvente porque não conseguia mais existir com todas aquelas convicções, ansiedades,  melodias, filmes europeus, rimas, cigarros e baixa auto-estima. Então eu quis me diluir em você cinco minutos depois de conhecê-lo porque, de algum jeito, me vi mais inteira no preto do seu olho depois que nos beijamos.

Funcionou durante um fim de semana porque a vida real nunca passa mais que dois dias de folga. Ela voltou e trouxe consigo um comprovante de residência seu – de longe, longe dali. Também veio um caminhão-baú cheio de caixas pesadas e difíceis de manusear, tão difíceis que você mesmo não sabia como lidar com elas. Vida real me arrancou do seu abraço com a ajuda do meu senso de auto-preservação enquanto eu chorava desproporcionalmente, esticando os braços na sua direção. Você desencapou o violão e sentou na calçada. E lá estava eu de novo, tendo que suportar tudo o que era meu de uma vez, como nos últimos um, dois, três anos. Vida real não queria nem saber. Senso de auto-preservação repetia “um dia você vai me agradecer por isso”. Você estacionou seu caminhão na menina que morava perto, de boca carnuda e afiada nas palavras. Eu te fiz uma música enquanto vida real dormia e senso de auto-preservação dava uma chance para o acaso. Você agradeceu catorze dias depois. Eu insinuei algo do tipo “vem”. Você não respondeu. Eu chorei. Vida real falou “eu disse”. Senso de auto-preservação assumiu a culpa e, para se redimir, assinou um documento no cartório em vias autenticadas prometendo se esforçar mais no quesito “lidando consigo mesmo”.

Agora não preciso mais me diluir. Rio sozinha olhando pra cima pensando como é bom não precisar mais de você para existir. Ainda bem.

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