Cifras
Sempre tem uma música. Você está em alguma livraria, na rua, no ponto de ônibus e ela começa a tocar. Você cai direto ao chão, em pedaços pontiagudos, e pára de respirar. Você contrai todas as suas partes e tenta pensar nas contas a pagar penduradas na porta da geladeira, nas roupas que esqueceu de buscar na lavanderia, no lixo reciclável que você misturou - de novo - com o lixo orgânico.
O ar já mudou de textura e agora é tarde. Você está chorando outra vez e prometeu que não faria mais. Aproveita porque essa, essa é a última. A última vez que você lembra do que não podia ao som de você sabe o quê.
Tags:conto, ficção, reflexões
Postado por Gica Trierweiler @ 12:25:04 pm | #permalink
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Urgente
Urgência é aquilo que arde. Que já era pra ter sido, mas não foi ainda. Urgente é a pressa acorrentada e a vontade de abrir todos os botões da tua camisa com a força do meu pensamento. Urgente é o meu amor, que pinga em um conta-gotas desenfreado, acabando mais a cada minuto. Urgente é o meu desejo de somar o meu com o teu: corpos e sonhos e banalidades e discussões. “URGENTE!”, você grita. “URGENTE!”, meu coração se contrai. “URGENTE!”, meu corpo exclama antes que o tempo acabe.
E acaba. Na tua boca. E me desmonto nos trezentos e doze minutos mais urgentes da minha vida. E acaba. No meio da sala. E me esqueço da vontade que já passou. E acaba. No meu peito. E me perco em outro cigarro. E acaba. Acabo eu, urgente.

foto: ffffound.com
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Do meu arquivo, 13/03/06.
Tags:conto, ficção, narrativa, passado, queria ser escritora
Postado por Gica Trierweiler @ 11:50:18 pm | #permalink
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Verde Velma: Sabrina
Texto publicado no Verde Velma no dia 16/07/07
Sabrina era a canalização de toda a esperança de uma mãe infeliz e um pai ausente. Menina que nasceu com uma expressão assustada no rosto, cresceu com pavor. Não apanhava. Aliás, não tinha nem por quê: sempre fazia o que a sua mãe pedia com olhos suplicantes e dissimulados e gelatinosos.
Foi a mãe de Sabrina quem prometeu que um dia a filha acordaria princesa, donzela formidável. Sabrina acreditou. Todas as noites deitava a cabeça na fronha puída e dormia com megalomanias. Às vezes esquecia o nome do próprio pai. Quando isso acontecia, escolhia o primeiro que vinha à cabeça: não fazia muita diferença.
Um dia o pai não voltou pra casa. Ligou para a mãe e cochichou algumas coisas. A mãe caiu em um canto da cozinha e chorou baixinho. Pediu desculpas. E rezou também. E fechou os olhos. E virou um ramo de salsão.
Sabrina não entendeu muito bem. Com cuidado, pegou o ramo de salsão e o deixou na soleira da janela, perto do vasinho de violetas. Ligou a televisão e esqueceu de viver por alguns anos. Quando seus cabelos passaram dos joelhos, bocejou e pediu pela mãe. Lembrou de tudo e correu para a janela. A casa estava submersa.
Um cachorro mediano perguntou se ela gostaria de sair dali. Assustada, recusou o convite. Precisava se ocupar e escreveu no tapete da sala, em letras minúsculas e cursivas, a sua carta de despedida:
mãe, tá escuro
e frio e apertado aqui
e vazio e molhado aqui
mãe, tá escuro e não tem ninguém
mãe, tenho medo
e vontade de parar um pouco
e de chorar um tanto
mãe, tenho medo e deveria ter alguém
O cachorro deu conta das sobras.
Tags:conto, ficção, sabrina, verde velma
Postado por Gica Trierweiler @ 07:03:00 pm | #permalink
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Verde Velma: Só isso
Texto publicado no verdevelma.blogspot.com em 05/05/05.
Pensando sobre minha atual situação, cheguei a uma reflexão sobre o adjetivo “sozinho”. Obviamente, sozinho vem do “só”. Só é o ser avulso, ímpar, sem acompanhamento: um contexto deveras doloroso e nada interessante para qualquer coisa que respire (salvo exceções como os tigres que caçam sós, os monges e as solitárias - estas, por motivos óbvios). De tão deprimente que é o fato de se estar só e com o intuito de eufemizar o sofrimento, alguém calçou um diminutivo no pesadelo e daí nasceu ele, o sozinho.
“Mas de onde você tirou isso?”
“Pô, coitado dele… tá sofrendo tanto… dá uma peninha…”
“Só porque ele é só”?
“Ui, não fala assim… ele é… sozinho, né?”
O problema de se estar sozinho, ao contrário de se estar só, é que o sozinho é choroso e vive divulgando abertamente a sua condição. O só é mais introspectivo e disfarça tão bem que todos chegam a pensar que ele não se importa em cozinhar pra uma pessoa apenas e conversar com o espelho. Claro, o só chora um pouquinho, mas quando ninguém vê, só quando está sozinho.
Tags:conto, ficção, verde velma
Postado por Gica Trierweiler @ 04:33:00 pm | #permalink
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Verde Velma: Pra constar nos registros
Texto publicado no verdevelma.blogspot.com em 15/05/05
Oi, estou escrevendo para avisar que hoje a temperatura é de, aproximadamente, 20 e tantos graus. O céu se mistura em tons de azuis e brancos e o sol se espreguiça lentamente. As pessoas todas falam num ritmo interessante, compondo arranjos harmônicos e isso me diverte. Os cachorros abanam rabos e orelhas e tudo mais que deve ser abanado. O almoço não foi preparado, e sua lacuna foi preenchida com um sanduíche qualquer. Desculpa, mas ainda não saí de dentro do meu pijama velho, nem arrumei os cabelos. Os dentes eu escovei, certamente. Meus compromissos para hoje foram acidentalmente cancelados e agora há um espaço sobrando na agenda.
Na realidade, estou escrevendo para avisar que hoje é o dia perfeito para eu conhecer você. Hoje.

