outubro 17, 2008

Flávia


Flávia tinha verdadeiro pavor de contato humano. Era tida como excêntrica e antipática pelos colegas de trabalho. “Não sei a quem puxou”, dizia dona Heloísa, sua mãe. O fato é que arrepios assombrosos lhe percorriam a espinha toda vez em que se via na obrigação de cumprimentar alguém.

Houve um dia em que foi abordada por um estranho na rua. Quando Flávia sentiu o par de dedos alheios tamborilando suavemente no seu ombro esquerdo, o coração parou, o ar escapou dos pulmões e as pupilas se contraíram. O pânico se instalou de tal forma que não conseguia se mexer. Era o fim.

Excuse-me, lady. I’m kinda lost and I’d like to know where is the art museum. Flávia mantinha-se estática, muda e refratária. O turista caricato tomou um susto com a reação da moça, mas insistiu. Sorry, lady, do you speak english? Sentiu-se leve como nunca. Os joelhos cederam e ela foi ao chão em câmera lenta. Há quem diga tê-la ouvido murmurar algo que soou como um “How do you do?” antes de morrer.

Anthony foi deportado no dia seguinte. Os colegas de trabalho trocaram uma centena de e-mails durante o horário comercial por uma semana. Dona Heloísa converteu-se a uma fervorosa facção cristã, vendeu a casa de praia e doou todo o dinheiro para Jesus.



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Postado por Gica Trierweiler @ 10:36:59 pm | #permalink

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julho 27, 2008

Um, dois, três.


Chegou a hora. Levanta? Não levanta. Quer? Quer, mas não pode. Pode, mas não consegue. Até consegue, mas não quer. Fuma? Mais um, dois, três cigarros. Rasgando a garganta, os planos e tantas certezas.

Pára? Tenta, um pouco. Então grita e vê se ajuda. Não pode? Pode. Pode, mas não quer. Quer, mas não consegue. Os vizinhos vão acordar com as batidas do seu coração. Escuta? O que sobrou?

As unhas roídas, os cabelos amassados, a maquiagem derretida pelo rosto e o cheiro. Cheiro de. Quatro, cinco, sete cigarros. Furo na meia-fina, outro café-sem-açúcar-por-favor. Sorriso amarelo diante de. O oitavo cigarro acaba na metade.

Ah, o telefone. Toca? Não toca. Liga? Não consegue. Álcool? Não, saída fácil. Pára e pensa. Respira. Um, dois, três, conta? Conta. Fecha os olhos? Fecha. Espera o tempo passar?



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Postado por Gica Trierweiler @ 06:32:39 pm | #permalink

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