Um, dois, três.
Chegou a hora. Levanta? Não levanta. Quer? Quer, mas não pode. Pode, mas não consegue. Até consegue, mas não quer. Fuma? Mais um, dois, três cigarros. Rasgando a garganta, os planos e tantas certezas.
Pára? Tenta, um pouco. Então grita e vê se ajuda. Não pode? Pode. Pode, mas não quer. Quer, mas não consegue. Os vizinhos vão acordar com as batidas do seu coração. Escuta? O que sobrou?
As unhas roídas, os cabelos amassados, a maquiagem derretida pelo rosto e o cheiro. Cheiro de. Quatro, cinco, sete cigarros. Furo na meia-fina, outro café-sem-açúcar-por-favor. Sorriso amarelo diante de. O oitavo cigarro acaba na metade.
Ah, o telefone. Toca? Não toca. Liga? Não consegue. Álcool? Não, saída fácil. Pára e pensa. Respira. Um, dois, três, conta? Conta. Fecha os olhos? Fecha. Espera o tempo passar?
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Postado por Gica Trierweiler @ 06:32:39 pm | #permalink
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Cifras
Sempre tem uma música. Você está em alguma livraria, na rua, no ponto de ônibus e ela começa a tocar. Você cai direto ao chão, em pedaços pontiagudos, e pára de respirar. Você contrai todas as suas partes e tenta pensar nas contas a pagar penduradas na porta da geladeira, nas roupas que esqueceu de buscar na lavanderia, no lixo reciclável que você misturou - de novo - com o lixo orgânico.
O ar já mudou de textura e agora é tarde. Você está chorando outra vez e prometeu que não faria mais. Aproveita porque essa, essa é a última. A última vez que você lembra do que não podia ao som de você sabe o quê.
Tags:conto, ficção, reflexões
Postado por Gica Trierweiler @ 12:25:04 pm | #permalink
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Renata
Talvez hoje não seja o seu melhor dia, Renata. Você pode não entender, eu sei, mas a questão é que essa é a mais pura verdade. Talvez, querida Renata, você acredite que seja maior do que realmente é. E também é bem possível que você pense ser capaz de mudar as vidas das pessoas. Seria um dom notável, reconheço, mas não assim.
Por que você acha que tudo pode, Renata? Por que você quer tudo isso? Não estamos falando de altruísmo, nem de auto-ajuda. Talvez seja só uma vontade de receber toneladas de reconhecimento vindos de todos os lados. Não? Renata, você não precisa chorar. Eu sei que você se sente sozinha e que não é nada fácil. Te conto um segredo? Não é fácil pra ninguém.
Ninguém vai salvar o mundo hoje. Pare de tentar mudar a vida dos outros: mude a sua e seja feliz. E o que você entende de felicidade? Feliz é aquele que sabe conviver com a rotina. E aí você tem outro segredo.
Renata, não me odeie, nem minta para si mesma. Você tem muito trabalho pela frente.
Tags:ficção, reflexões
Postado por Gica Trierweiler @ 01:24:10 pm | #permalink
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Urgente
Urgência é aquilo que arde. Que já era pra ter sido, mas não foi ainda. Urgente é a pressa acorrentada e a vontade de abrir todos os botões da tua camisa com a força do meu pensamento. Urgente é o meu amor, que pinga em um conta-gotas desenfreado, acabando mais a cada minuto. Urgente é o meu desejo de somar o meu com o teu: corpos e sonhos e banalidades e discussões. “URGENTE!”, você grita. “URGENTE!”, meu coração se contrai. “URGENTE!”, meu corpo exclama antes que o tempo acabe.
E acaba. Na tua boca. E me desmonto nos trezentos e doze minutos mais urgentes da minha vida. E acaba. No meio da sala. E me esqueço da vontade que já passou. E acaba. No meu peito. E me perco em outro cigarro. E acaba. Acabo eu, urgente.

foto: ffffound.com
*
Do meu arquivo, 13/03/06.
Tags:conto, ficção, narrativa, passado, queria ser escritora
Postado por Gica Trierweiler @ 11:50:18 pm | #permalink
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Cadarços
_Nunca vi paredes assim.
Eram paredes azuis, altas e limpas. Nenhum interruptor, quadro ou teia de aranha.
_Eu disse que eu nunca vi paredes assim.
_Eu ouvi.
_Estranho.
Estavam nervosos e continuavam esperando que fossem chamados. Os dois pensavam na mesma coisa, mas preferiam não falar a respeito.
_Você fechou as janelas da sala?
_Fechei.
Ele não sabia se havia fechado.
_Deixou as chaves na portaria?
_Sim.
Silêncio. Silêncio nervoso, quase barulhento, devido à velocidade dos pensamentos. O inaudível grito fino da angústia pairava pelo corredor.
_Eu acho que agora vão nos chamar.
_Você amarrou os cadarços duas vezes?
_Duas vezes. Não vão abrir, fique tranqüilo.
_Bom.
_Você pode segurar a minha mão? Eu acho que realmente vão nos chamar agora.
Dito e feito. Seus nomes soaram em um timbre metálico e uma porta se abriu.O frio se instalou nas barrigas.
_Parece que somos nós.
_Vamos ganhar. Eu sei que vamos.
_Sim. Eu passei a última semana inteirinha treinando as piruetas.
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Postado por Gica Trierweiler @ 04:31:27 pm | #permalink
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Verde Velma: Sabrina
Texto publicado no Verde Velma no dia 16/07/07
Sabrina era a canalização de toda a esperança de uma mãe infeliz e um pai ausente. Menina que nasceu com uma expressão assustada no rosto, cresceu com pavor. Não apanhava. Aliás, não tinha nem por quê: sempre fazia o que a sua mãe pedia com olhos suplicantes e dissimulados e gelatinosos.
Foi a mãe de Sabrina quem prometeu que um dia a filha acordaria princesa, donzela formidável. Sabrina acreditou. Todas as noites deitava a cabeça na fronha puída e dormia com megalomanias. Às vezes esquecia o nome do próprio pai. Quando isso acontecia, escolhia o primeiro que vinha à cabeça: não fazia muita diferença.
Um dia o pai não voltou pra casa. Ligou para a mãe e cochichou algumas coisas. A mãe caiu em um canto da cozinha e chorou baixinho. Pediu desculpas. E rezou também. E fechou os olhos. E virou um ramo de salsão.
Sabrina não entendeu muito bem. Com cuidado, pegou o ramo de salsão e o deixou na soleira da janela, perto do vasinho de violetas. Ligou a televisão e esqueceu de viver por alguns anos. Quando seus cabelos passaram dos joelhos, bocejou e pediu pela mãe. Lembrou de tudo e correu para a janela. A casa estava submersa.
Um cachorro mediano perguntou se ela gostaria de sair dali. Assustada, recusou o convite. Precisava se ocupar e escreveu no tapete da sala, em letras minúsculas e cursivas, a sua carta de despedida:
mãe, tá escuro
e frio e apertado aqui
e vazio e molhado aqui
mãe, tá escuro e não tem ninguém
mãe, tenho medo
e vontade de parar um pouco
e de chorar um tanto
mãe, tenho medo e deveria ter alguém
O cachorro deu conta das sobras.
Tags:conto, ficção, sabrina, verde velma
Postado por Gica Trierweiler @ 07:03:00 pm | #permalink
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Verde Velma: Amar é…
Texto publicado no Verde Velma no dia 11/06/07
Gostar, respeitar, realizar, aceitar, admirar e dançar até a última música. Também é saber dizer não, sim, eu quero agora e não podemos ficar desse jeito. É sentir a perna amolecer, o coração esquentar e a barriga explodir em borboletas. Querer ficar junto, querer ter o seu tempo sozinho, querer. Abrir os olhos, o peito, as pernas, a cabeça. Fechar os olhos e acreditar. Acreditar em si, nos dois, nos três, nos cinco. Contar os dias. Vestir uma roupa bonita e ganhar um beijo. Receber. Dar. Amar é ter certeza de que o mundo pode acabar porque assim tá bom demais. Amar é saber que vai ter amanhã e depois e depois e depois e depois e que vai ficar sempre tudo bem, mesmo quando não estiver nada bem. Amar é fazer uma música, é abraçar e se sentir seguro, é recíproco. É fazer sexo olhando no olho, ficar pelado e não sentir vergonha. É ser você mesmo, ser uma verdade em um par. É acordar mais cedo pra ver o outro dormir. É respirar o mesmo suspiro. Beijo no nariz. Passeio bobo. Filme repetido. Amar é bobo assim.
Eu queria tudo isso, não necessariamente nessa respectiva ordem.
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Postado por Gica Trierweiler @ 08:32:00 pm | #permalink
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Verde Velma: Só isso
Texto publicado no verdevelma.blogspot.com em 05/05/05.
Pensando sobre minha atual situação, cheguei a uma reflexão sobre o adjetivo “sozinho”. Obviamente, sozinho vem do “só”. Só é o ser avulso, ímpar, sem acompanhamento: um contexto deveras doloroso e nada interessante para qualquer coisa que respire (salvo exceções como os tigres que caçam sós, os monges e as solitárias - estas, por motivos óbvios). De tão deprimente que é o fato de se estar só e com o intuito de eufemizar o sofrimento, alguém calçou um diminutivo no pesadelo e daí nasceu ele, o sozinho.
“Mas de onde você tirou isso?”
“Pô, coitado dele… tá sofrendo tanto… dá uma peninha…”
“Só porque ele é só”?
“Ui, não fala assim… ele é… sozinho, né?”
O problema de se estar sozinho, ao contrário de se estar só, é que o sozinho é choroso e vive divulgando abertamente a sua condição. O só é mais introspectivo e disfarça tão bem que todos chegam a pensar que ele não se importa em cozinhar pra uma pessoa apenas e conversar com o espelho. Claro, o só chora um pouquinho, mas quando ninguém vê, só quando está sozinho.
Tags:conto, ficção, verde velma
Postado por Gica Trierweiler @ 04:33:00 pm | #permalink
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Verde Velma: Pra constar nos registros
Texto publicado no verdevelma.blogspot.com em 15/05/05
Oi, estou escrevendo para avisar que hoje a temperatura é de, aproximadamente, 20 e tantos graus. O céu se mistura em tons de azuis e brancos e o sol se espreguiça lentamente. As pessoas todas falam num ritmo interessante, compondo arranjos harmônicos e isso me diverte. Os cachorros abanam rabos e orelhas e tudo mais que deve ser abanado. O almoço não foi preparado, e sua lacuna foi preenchida com um sanduíche qualquer. Desculpa, mas ainda não saí de dentro do meu pijama velho, nem arrumei os cabelos. Os dentes eu escovei, certamente. Meus compromissos para hoje foram acidentalmente cancelados e agora há um espaço sobrando na agenda.
Na realidade, estou escrevendo para avisar que hoje é o dia perfeito para eu conhecer você. Hoje.
Tags:conto, ficção, verde velma
Postado por Gica Trierweiler @ 04:27:00 pm | #permalink
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Bipolares
O que aconteceu? Nada. Mesmo? Mesmo. E essa cara? É a minha cara. Fala comigo. Tô falando. O que foi que eu fiz? Nada. O que foi que você fez? Eu não fiz nada. Posso te ajudar com alguma coisa? Não. Alguém fez algo de ruim pra você? Não. Algo de bom? Não. Tá precisando de qualquer coisa? Não. Então! O que é? Nada. Você… Eu, nada. Tá chorando? Não. Tá sim. Não tô. Olha eu… Você o quê? Eu não… Não o quê? Nada. Eu só queria saber o que tava acontecendo porque você passou o dia inteiro sem me olhar direito e eu não sabia o que fazer porque você também é sempre assim imprevisível e muda de humor a toda hora e eu nunca sei o que fazer então acho que o problema é comigo daí fico perguntando pra ver se descubro alguma coisa e você sempre diz “nada”. Te amo. O QUÊ? Te amo. À merda. Sério, te amo. Verdade? Verdade. Mesmo? Mesmo. Eu também. Eu sabia. Desculpa. Desculpo.
Tags:bipolares, ficção, narrativa
Postado por Gica Trierweiler @ 11:11:00 am | #permalink
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Calcanhares
Curta-metragem * 2005
Roteiro: Gica Trierweiler
Direção: Gica Trierweiler e Jesús Miguel Diez (México)
Edição: Gica Trierweiler e Jesús Miguel Diez (México)
Produção: Gica Trierweiler e Taís Mendes Lucena
Atuação: Taís Mendes Lucena
Trilha: Zero 7 - Look up


