Verde Velma: Sabrina
Texto publicado no Verde Velma no dia 16/07/07
Sabrina era a canalização de toda a esperança de uma mãe infeliz e um pai ausente. Menina que nasceu com uma expressão assustada no rosto, cresceu com pavor. Não apanhava. Aliás, não tinha nem por quê: sempre fazia o que a sua mãe pedia com olhos suplicantes e dissimulados e gelatinosos.
Foi a mãe de Sabrina quem prometeu que um dia a filha acordaria princesa, donzela formidável. Sabrina acreditou. Todas as noites deitava a cabeça na fronha puída e dormia com megalomanias. Às vezes esquecia o nome do próprio pai. Quando isso acontecia, escolhia o primeiro que vinha à cabeça: não fazia muita diferença.
Um dia o pai não voltou pra casa. Ligou para a mãe e cochichou algumas coisas. A mãe caiu em um canto da cozinha e chorou baixinho. Pediu desculpas. E rezou também. E fechou os olhos. E virou um ramo de salsão.
Sabrina não entendeu muito bem. Com cuidado, pegou o ramo de salsão e o deixou na soleira da janela, perto do vasinho de violetas. Ligou a televisão e esqueceu de viver por alguns anos. Quando seus cabelos passaram dos joelhos, bocejou e pediu pela mãe. Lembrou de tudo e correu para a janela. A casa estava submersa.
Um cachorro mediano perguntou se ela gostaria de sair dali. Assustada, recusou o convite. Precisava se ocupar e escreveu no tapete da sala, em letras minúsculas e cursivas, a sua carta de despedida:
mãe, tá escuro
e frio e apertado aqui
e vazio e molhado aqui
mãe, tá escuro e não tem ninguém
mãe, tenho medo
e vontade de parar um pouco
e de chorar um tanto
mãe, tenho medo e deveria ter alguém
O cachorro deu conta das sobras.

