Triermianowsky

Posted by on Nov 9, 2016 in Blog, vida | No Comments

Eu acho que foi entre 2000 ou 2001. Eu tinha passado quase dois meses na Itália. Na volta, terminei-voltei-terminei um namoro. Fiz uma canção sobre. E a professora de música resolveu fazer um recital pra mostrar a gente pro mundo.

Ela misturou os alunos e promoveu parcerias porque o palco do teatro era muito grande e, juntos, teríamos mais potência pra preencher todo aquele espaço. Até porque, convenhamos, não tinha nenhum João Bosco ali, né, gente? Foi assim que eu conheci o menino de nome composto, com 68% da minha estatura apesar da mesma idade e um talento musical desses que desafiam a física.

Ele conhecia a banda onde eu tocava. Ele ouvia as mesmas bandas que eu. Ele também achava que era a pessoa mais desgraçada da crosta terrestre. E, assim como eu, ele jogava tudo isso na música. Nossa professora estava certa: deu match.

Começamos a falar mais, chegando mais cedo que o horário marcado pro ensaio, indo embora bem mais tarde. Conversando por horas numa internet pré-banda larga em horários não-convencionais. Abrindo os corações, dividindo músicas favoritas, aprendendo novos acordes, fazendo planos de dominar o mundo com as nossas canções autorais. Só eu e ele. Triermianowsky, cheguei a desenhar numa folha certa feita.

A gente tinha isso de se dar colo – literalmente – e andar de mãos dadas, mas éramos amigos. Eu cuidava dele. Ele cuidava de mim. Esse era o combinado, abraçado. Um dia ele disse que achava errado eu namorar aquele ex-namorado e eu também achei. Outro dia ele disse que precisava falar comigo. A sós. E a gente combinou de se encontrar na escadinha diminuta da escola de música fechada.

Eu não fazia idéia de que ele ia dizer que gostava muito de mim porque sou dessas. Ele disse. Isso e mais um monte de coisas que foram mostrando um rio de sentimentos e esperanças e vontades e tantas coisas e eu fiz o que podia fazer: coloquei ele no colo e disse não, eu não posso ser sua namorada. Eu disse que a gente deveria continuar sendo amigos, sim, eu disse isso. Naquela época eu era jovem e inexperiente demais pra saber que essa frase “mas nós podemos continuar amigos” jamais deve ser dita. Ele deu um sorriso triste. Falou que não queria ter dito, mas que um amigo tinha colocado a maior pilha. O argumento do amigo: “se der certo, você namora ela. Se der errado, vem aqui e a gente bebe até virar do avesso.”

Levantou e foi embora. Desapareceu, na verdade, embora tivesse procurado muito por ele. Nunca mais o vi , salvo uma vez na locadora ou numa festa, mas já era outro. Depois fiquei sabendo que ele criou um projeto autoral maravilhoso, banda de um homem só, que fez turnê pra cima e pra baixo. Fiquei com orgulho e aliviada porque a vida permitiu que ele fosse grande no seu talento. Tinha um medo danado de que ele virasse desses que afoga o dom num calabouço interior e vai, sei lá, trabalhar com papéis, vender terrenos, ser infeliz numa agência de publicidade.

Hoje acordei com essa música na cabeça. Não lembro o nome dela, mas era dele e a gente cantou juntos no recital. Essa e mais outras que não tinham absolutamente nada a ver com o repertório dos demais. Mas a gente era essa dupla nada a ver com o mundo, mesmo. E talvez por isso fosse tão legal. Gravei pra lembrar, escrevi pra marcar essa passagem boa da minha vida. Obrigada por existir no meu passado, dupla <3

[soundcloud url="https://api.soundcloud.com/tracks/292230384" params="color=ff5500&auto_play=false&hide_related=false&show_comments=true&show_user=true&show_reposts=false" width="100%" height="166" iframe="true" /]

Leave a Reply