Tudo o que você não quer.

Posted by on May 24, 2011 in Blog, eu que fiz, texto | No Comments

Ser professoral com temas abstratos tem cheiro de armário e faz o nariz coçar. Mas você já sangrou o bastante nessas liçõezinhas da vida para ter alguma coisa útil a dizer, algum conselho que valha uns trocados. Então você se lembra de quando você era o jovenzinho apaixonado e de todos os conselhos sobre temas difusos que costumava ouvir quando desfiava algumas peculiaridades da sua vida ao vento. Por isso que hoje você compartilha seus ensinamentos contando historinhas como se fosse um Jesus cansado e pós-moderno: assim pelo menos fica mais fácil para todo mundo. Então diz aos seus apóstolos.

Ela tinha uns vinte anos e quatorze problemas, a saber: falta de dinheiro, excesso de peso, vício em nicotina, relacionamento péssimo com os pais, trabalho explorador, tendinite, tempo escasso, faculdade chata, chulé, irmão barulhento, poucos amigos, muitos inimigos, depressão hereditária e nenhum amor. Então conheceu ele, nascido 4 anos antes, com alguns gostos musicais e problemas em comum. Apaixonaram-se depois de letrinhas trocadas virando madrugadas no computador: ela aqui, ele acolá, somando probleminhas e encontrando soluções.

O amor quase não sobreviveu à distância, mas a vida tem dessas surpresas. Ela abriu mão de isso e aquilo, ele passou a ligar com mais frequência. Mas os diálogos foram se copiando, se desgastando, se acabando, se monossilabando até que:

ELE: Oi.
ELA: Oi.

E se fazia silêncio porque o silêncio pelo menos tinha algumas supresas, enquanto que “oi-oi-saudade-também-tudo-bem-tudo-bem-que-bom-é-saudade-também” era sempre igual. Acabaram desistindo porque sofriam demais. Depois sofriam porque desistiam. Era quando os telefonemas se enchiam de palavras retumbantes e os corações enxergavam alguma possibilidade. Ela não queria mais problemas, ele também não.

Um dia ela ligou e “vem morar comigo?” e “como assim?” e “é, vem, faz a mala e vem porque a gente precisa saber se a gente dá certo” e “mas e se eu for?” e “aí talvez possa funcionar” e “e se der tudo errado?” e – preste bem atenção no que ela disse – PELO MENOS A GENTE NÃO VAI SE ARREPENDER DE NÃO TER TENTADO. Ele foi e ninguém se arrependeu porque tudo era bem lindo, ainda que eles não tivessem geladeira, nem cama, nem mesa, mas banho tinha e tinha também quatro violões e paredes brancas e cinzeiros em cada quina, e tudo bem porque o amor vive da poesia dessas coisas bobas e sem muita importância.

Pouco tempo depois ela caiu e o buraco não tinha mais fundo. Caíam também suas certezas fundamentais, aquelas sobre o amor e a vida e. Viu-se pagando as contas sozinha enquanto ele blablablá o dinheiro não importa, viu-se perdendo seus pequenos luxos enquanto ele blablablá sou designer e perito em filosofia, viu-se implorando por sexo enquanto ele blablablá a gente não precisa ser tão carnal, viu-se descobrindo uma mentira enquanto ele blablablá eu sou toda uma mentira. Viu-se com um grande problema.

Ela mudou de emprego, de cidade, de conceito, de sobrenome. Ele continuou o mesmo. Ela mandou um comunicado com o valor que ele deveria pagar referente à recisão do aluguel e àquelas compras que havia feito com o cartão dela. Ele disse que quem quis se separar foi ela e ela é quem deveria arcar com esses valores. Ela respondeu com ofensas. Ele disse que havia consultado um advogado e que ela deveria lhe pagar uma pensão. Ela ligou para a polícia e disse que estava prestes a cometer um assassinato. Ele sumiu.

Calendários se foram, e ela ainda não aprendeu a perdoar. Ao pensar que entregou todo seu amor de verdade a ele, um espectro podre, aquela vontade de socar paredes lhe sobe à garganta. Se ao menos ela soubesse perdoar, talvez conseguisse ser feliz de uma vez. Se ao menos ele explodisse, morresse, carbonizasse, sofresse muito, mais que todas as vítimas do terceiro reich, mais que as crianças órfãs dos maremotos japoneses. Ela não quer saber de perdão: ela quer que ele pague porque sabe que ele vai fazer tudo outra vez para o resto da vida. Ela sabe, Schopenhauer sabe. “Pode-se esquecer tudo, tudo, menos a si mesmo, menos o próprio ser, pois o caráter é absolutamente incorrigível e todas as ações humanas brotam de um princípio íntimo, em virtude do qual, o homem, em circunstâncias iguais, tem sempre de fazer o mesmo, e não o que é diferente.” Caráter incorrigível é definitivo demais para retirar qualquer coisa ruim que tenha passado.

Então você olha ao redor e percebe que há mais apóstolos a sua volta e, a partir daí, que cada um descasque a história a fim de encontrar o conselho que bem entender. Pelo menos você tirou esse cancro de dentro de si e passou o ninho de vespas para frente, disfarçado como passagem sacra para uns, depoimento de revista feminina para outros. Você ajeita os pensamentos e dessa vez conclui que perdoar é um conceito cunhado para imprimir alguma ordem na sociedade porque enquanto houver pessoas como ele, não há perdão. Enquanto houver lembrança, expectativa, dor, culpa, indignação e Schopenhauer, desculpe, o problema é nosso, não há perdão.

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